Por que ou Porque ?
Uns dizem que Por que é seguido de um nome, tendo o sentido de por qual, ou por onde: Por que caminho foram para Santiago?
Porque, enquanto advérbio interrogativo de causa, é seguido de um verbo, como em Porque voltaste?
(in Bom Português, 2009)
Já outros dizem que Por que é apenas utilizado em perguntas e pode ser substituído por qual razão.
(in Vozes que se vêem, 2007)
Ainda, há outros que dizem que Por que usa-se quando houver a junção da preposição “por” com o pronome interrogativo “que” ou com o pronome relativo "que". Para facilitar, poderemos substituí-lo por «por qual razão», «pelo qual», «pela qual», «pelos quais», «pelas quais», «por qual».
Ex.
Por que não me disse a verdade? (= por qual razão)
Gostaria de saber por que não me disse a verdade. (= por qual razão)
As causas por que discuti com ele são particulares. (= pelas quais)
Esta é a causa por que luto. (= pela qual)
Porque (adv. interr.)
Tem valor semântico causativo ou final em frases interrogativas directas, sendo parafraseável por «por que motivo», «por que razão», «com que fim», «com que intenção».
Ex.
Porque saíste sem avisar?
Porque mentiste?
Tem valor semântico causativo ou final em frases interrogativas indirectas, depois de verbos declarativos, sendo parafraseável por «por que motivo», «por que razão», «com que fim», «com que intenção».
Ex.
Não explicou porque tinha de fazer de novo o trabalho.
Não sei porque estás tão preocupada.
Perguntei-lhe porque tinha escolhido aquele curso.
Outros dizem que em orações interrogativas (directas e indirectas) introduzidas pelo pronome interrogativo porque: Porque esperas? Perguntei porque esperas. Como no caso de outros pronomes interrogativos, a função de porque é questionar, neste caso a causa, sendo substituível por qual o motivo de/para, qual a causa de/para, qual a razão de/para. Assim, a pergunta Porque esperas? é parafraseável por Qual o motivo de estares à espera?. A resposta a esta interrogativa directa deve explicitar uma causa, sendo habitualmente introduzida pela conjunção causal: - Espero porque o médico ainda não me chamou.
Orações interrogativas (directas e indirectas) que correspondem a um argumento introduzido pela preposição por seguida do pronome/determinante interrogativo que: Por que esperas? Por que peças trocaste os copos que recebeste no Natal? Perguntei por que esperas. Não sei por que peças trocaste os copos que recebeste no Natal. A sequência por que não tem aqui qualquer valor de causa. Efectivamente, na pergunta Por que esperas?, a preposição por pertence à regência do verbo esperar (ex.: tu esperas por alguma coisa) e o pronome interrogativo que corresponde ao argumento nominal do verbo esperar (ex.: tu esperas por alguma coisa). Assim, a pergunta Por que esperas? é parafraseável por Por que coisa esperas?.
Orações interrogativas (directas e indirectas) introduzidas pela preposição por seguida do determinante interrogativo que com nomes expressos como motivo, causa, razão: Por que motivo chegaram tarde? Indaguei por que motivo chegaram tarde. Nestes casos, a sequência por que tem valor causal pois, a preposição por não pertence à regência do verbo (ou de outra classe gramatical). As respostas à interrogativa directa Por que motivo chegaram tarde? devem explicitar uma causa, sendo habitualmente introduzidas pela conjunção causal: - Porque adormeceram.
E ainda há outros que dizem:
Três regras essenciais que talvez contribuam para um melhor esclarecimento:
1. Utiliza-se porque em geral nas frases interrogativas e, portanto, na expressão «porque é que».
2. Utiliza-se por que (preposição por e interrogativo ou relativo que) quando pode ser substituído por «por qual», «por quais», «pelo qual», «pela qual», «pelos quais», «pelas quais», ou seja, normalmente quando está presente na frase o substantivo a que o que se refere.
Exemplos de 1 (advérbio interrogativo), tirados de obras de alguns escritores:
1.1. Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra, edição didáctica, Porto, Porto Editora, 1977)a. Cap. XV, pág. 105
«– Como e porque deixava ele o mundo?»
b. Cap. XXIII, pág. 152
«- Joaninha, Joaninha, porque tens tu os olhos verdes?...»
1.2. Eça de Queirós (Os Maias, ed. Livros do Brasil)
a. pág. 196
«– Diz-me outra coisa. Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?»
b. pág. 458
«Porque não havemos de partir já para a Itália? – perguntou ela de repente, procurando a mão de Carlos. – Se tem de ser, porque não há-de ser já?...»
c. pág. 462«– Porque vieste tão tarde?»
1.3. Bernardo Santareno, O Judeu, 11.ª ed. Lisboa, Edições Ática, 1990
a. pág. 102
«Porque teima o Inquisidor, pertinaz e aborrido, em contratar para esta vergonhosa hora a cerimónia do auto-de-fé? (…) E porque se arrenega ele, contra a evidência da mais agachada razão?!...»
b. pág. 121
«– Porque… porque somos tão desgraçados?!...»
Exemplos de 2 (preposição por + que interrogativo ou relativo):
2.1. Por que motivo terá ela feito aquilo? (= por qual motivo)
2.2. Não sei por que motivo ele não veio.
2.3. Por que cargas de água tomou ele aquela decisão?
2.4. Por que mulher foste capaz de fazer tal loucura? (= por qual)
2.5. Ele sabe por que caminho deverá enviar os seus homens.
2.6. Tarda a decisão por que anseio. (= pela qual)
2.7. São muitas as provações por que temos de passar. (= pelas quais)
2.8. Ele desconhece a causa por que lutamos. (= pelos quais)
Volto já, vou até ali atirar-me de um poço...