08/03/2010

Dia de lágrimas

Os festejos do dia da mulher irritam-me.

Primeiro, porque não deveria ser preciso haver um dia da mulher, para as pessoas aprenderem a valorizar-nos enquanto seres humanos, com a mesma capacidade que o homem.

Segundo, porque festejar os feitos de mulheres louváveis com chapéus de bruxa e falos é um insulto à luta dessas mesmas mulheres e a tudo que conseguimos até agora.

Terceiro, porque não consigo celebrar o facto de ser mulher, sabendo o que se passa no mundo. Onde todos os dias, mulheres (aliás, meninas) são maltratadas, abusadas, espancadas, violadas, vendidas, e, novamente, maltratadas, abusadas, espancadas, violadas, vendidas, até que a salvação chegue ou até mesmo a morte.

De todas as atrocidades que o Homem é capaz de cometer, e sei que há bem mais, igualmente horrendas e das quais não me esqueço, esta é a que me toca mais e a que mais me repugna. Porque, sendo todo o tráfico humano ignominioso, aquele que tem como objectivo a escravatura sexual é torpe, é nojento, é sórdido, é ignóbil, é vil, não há palavras que descrevam a putrefacção das mentalidades de quem o pratica.

Por isso em dias como este, não me consigo rir, não consigo festejar, mas consigo lembrar-me destes testemunhos:

O Brasil é um dos destinos preferidos dos turistas sexuais. Portugueses, espanhóis e italianos são os principais consumidores de sexo fácil e barato com mulheres, mas também com crianças e adolescentes brasileiras. Para entrar na rota da exploração sexual infantil, que vitima dois milhões de crianças em todo o mundo, os repórteres da SIC e da revista VISÃO estiveram em Salvador, Porto Seguro e Fortaleza. Encontraram miséria, droga, corrupção e prostituição. Encontraram infâncias roubadas.

Ao primeiro dia, vi pobreza, rios de esgoto a atravessar barracas, gente que se fecha em casa com medo das armas dos traficantes de droga.


Exploração. Ao segundo dia, ouvi gente que trabalha sobre a exploração sexual infantil há muitos anos e me alertou: “Aponta-se o dedo ao turista sexual, mas isso é só a ponta do icebergue. Elas vendem-se porque têm fome. Os pais abusam, empurram. As mães fecham os olhos porque precisam do dinheiro.”

Direitos da criança. Ao terceiro dia, registei a revolta de uma assistente social. Contou-me que, há seis anos, em Salvador, o recepcionista de um hotel de cinco estrelas chamava uma mãe para deixar um bebé de oito meses no quarto dos turistas que o “encomendavam”. A mãe voltava à hora marcada para recolher o bebé e o dinheiro. Até ao cliente seguinte.

Tráfico de seres humanos. Ao quarto dia, encontrei uma mulher de olhar confuso, que recorria à mãe para confirmar a sua própria idade. Queria tanto fugir à pobreza da sua aldeia que, com 17 anos, aceitou que um suíço, 30 anos mais velho, a levasse para a Europa. Foi drogada, pontapeada, queimada. Não podia sair de casa sozinha. Mesmo assim não se considerava escrava. Antes presa numa casa rica, do que livre para a miséria. Parece uma opção. Mas é só a história de quem não tem opção.

Machismo. Ao quinto dia, esperei pelo relato do repórter de imagem da SIC, Jorge Pelicano, sobre o resultado do seu “disfarce” como turista sexual. Um taxista garantiu-lhe que arranjaria uma adolescente. “É fácil.” Mas, pior do que isso, confessou, orgulhoso, que há pouco tempo tinha “transado” com uma. Ela não tinha dinheiro para pagar a viagem. Ele cobrou-se como melhor lhe convinha: “Menina novinha é bom demais.” Para ele. E para ela? Não importa.

Culpa. Ao sexto dia, entrevistei adolescentes que tinham os braços todos cortados. Vítimas de exploração sexual desde crianças, automutilavam-se. Alguns cortes marcavam os pulsos. Perguntei se não tinham medo de morrer: “Não importa. São trinta minutos de alívio. Quanto mais sangue sair, melhor me sinto a seguir”, respondeu uma delas.

Abandono familiar. Ao sétimo dia, perguntei a uma jovem abusada pelo pai desde os 7 anos e explorada por pedófilos se não queria ter filhos. Respondeu que não, “porque não”, e pregou os olhos no chão. Quando se confessou incapaz de dizer “não” a homem algum, porque tinha medo de “apanhar”, como acontecia com o pai, foi a minha vez de pregar os olhos no chão. Estava a tornar-se cada vez mais difícil entrar na alma destas miúdas e sair ilesa.

Droga. Ao oitavo dia, fitei o olhar de um menino de rua na noite de Fortaleza. Ele correspondeu. Tinha 6, 7, 8 anos, no máximo. A pele estava esticada, à volta dos olhos havia rugas – um olhar de criança em rosto de velho. Era já madrugada e ele andava pelas mesas dos bares de prostituição a apanhar as latas vazias para poder fumar crack.

Emocionalmente, a minha reportagem acabou aqui. Já tinha visto todo o mal que o mundo tem para oferecer às crianças. Um mundo localizado num destino de férias paradisíaco, onde milhares de portugueses gostam de passar férias. Alguns não vão só à procura de belas praias. Cada minuto do seu prazer ficou marcado nos braços das minhas entrevistadas.

Um dia como este deveria ser um dia de lágrimas, pois somos nós, países ditos desenvolvidos, que alimentamos toda esta podridão.

7 comentários:

Ric Jo disse...

Concordo com isso tudo, mas alteraria um pequeno pormenor no teu texto. Onde escreves "... De todas as atrocidades que o homem é capaz de cometer...", creio que onde se lê a palavra 'homem', deveria ler-se 'Homem', ie com 'H' maiúsculo, pois mulheres há também envolvidas em atrocidades contra as próprias mulheres. De resto, totalmente de acordo.

Helena disse...

Sim, a questão do H foi uma falha, não era a minha intenção culpar os homens por tudo isto.
Verdade seja dita que essa gente não merece ter um H, nem sequer um monte de merda.

Helena disse...

Ah, vou alterar, claro :-p

Miss-I-Am-Free-Because-I-Belong-Nowhere disse...

Concordo plenamente!

Mas deixa-me relembrar-te que foi num dito dia da Mulher, num certo jantar de mulheres que descobrimos que éramos «almas gémeas» inseparáveis para toda a vida. ^_^ ehheheheheeh

Helena disse...

Pois é, nem me lembrava disso. Mas foi mesmo no dia da mulher ou foi só num dos muitos jantares de mulheres? Mulheres... baahhh... Erámos miúdas, miúdas muito bebedolas lol
E digo-te mais, inseparáveis além fronteiras! E vais ver que algumas pessoas tb o vão aprender a ser ;-)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tenho "mixed feellings" em relação aos "Dias de...". Não peal sua existência, mas pelo aproveitamento que alguns fazem deles.
de qualquer modo, a primeira parte do seu texto, creio que é bem demonstrativa da importância do DIM. Pelo menos, uma vez por ano, lembra-se a luta de outras mulheres, para conseguirem a igualdade de direitos.
A segunda parte, mostra que há ainda muito por fazert e que não é o DIM que resolve os problemas de todas essas mulheres. Pronto, lá estão os "mixed feellings", mas pergunto-lhe: haverá aklguém que seja contra o DIa da Crianaça?
Parabéns pelo belo texto.

Helena disse...

Já tinha visto no seu Crónicas do Rochedo que partilhamos alguns "Mixed Feelings."
A grande maioria das mulheres que festejam este dia, não dão a mínima importância ao que fizeram por elas. Não se importam que alguém tenha morrido para que elas pudessem votar, porque elas não votam. Não se importavam de não poder estudar, porque não gostam. Muitas não se importavam de ser donas de casa, se a sua situação financeira o permitisse.
Não querendo criticar essas mulheres, esta emancipação fez com que a sociedade passasse a exigir uma vida dupla da mulher, dona de casa e mulher de carreira, sendo que optar apenas por uma é condenável.
Tudo isto somado ao que se passa no resto do mundo, este dia é uma grande hipocrisia. Assim como é o dia das crianças.
Quando era criança, era um dia especial. Gostava de receber prendas, mas não sabia que um pouco por todo o mundo havia crianças a sofrer tanto.
Porquê festejar um dia da criança, quando devíamos lutar para que tivessem condições dignas?
O dia da criança faz com que todas as crianças escravizadas possam ser crianças por um dia? Não...