17/05/2010

Mas que grande alheira!... Perdão, alhada.

Devo dizer que quando comia carne, cheguei a experimentar a alheira de Mirandela e achei que era uma coisa intragável. O mesmo se pode dizer acerca do comportamento daquela gente.
Antes de mais, tenho de dizer que achei muito estranho, quando li que o sonho da Bruna Real era ser modelo. No fim de saber que ela aufere 500€ mensais, compreendi melhor. Ainda assim, para professora, podia ter um sonho que desse uso aos neurónios. Enfim, isso é outra história.
Também fiquei muito surpreendida, quando li que a edição da Playboy tinha esgotado naquela zona. Primeiro pensei que as mulheres no Norte estavam finalmente a depilar bigode e virilhas e a apreciar erotismo, mas afinal não. Foi para fazer uma fogueira. Fogueira essa de que, curiosamente, falei, nuns post atrás. Esta será a primeira mulher queimada em praça pública, por assumir publicamente a sua sexualidade. O que virá a seguir?
Confesso que considero muito triste viver num país, onde se confunde a privacidade com a esfera pública, a liberdade com a indecência. Passo a explicar: Privada é a opção da Bruna de posar nua. Privada é a sua opção de aceitar o seu corpo e não aceitar que falsos puritanismos refreiem a sua sexualidade. Da esfera pública é o produto final, onde o corpo da professora faz parte de um conjunto que pode ser apreciado como arte, como estímulo sexual, como melhor aprouver ao leitor, que será, por sua vez, maior de idade e consciente do conteúdo da revista. A Bruna é livre de mostrar o seu corpo e ganhar uns tostões com isso. A sua liberdade não interfere na liberdade de quem não a quer ver nua, pois para tal acontecer terão de adquirir a revista, ou procurar intencionalmente conteúdos semelhantes. Indecência não é tratar da sexualidade com uma abertura de espírito própria dos tempos em que vivemos. Indecência é ser professora e ganhar 500€. Indecência é deixar que o meu egoísmo, pudor, medo, insegurança, seja lá o que for, prejudique a vida de alguém. Indecência é despromover e despedir alguém sem justa causa, sem que a ACT se pronuncie sobre o caso.
Depois estas rebeliões dos bons costumes provocam-me náuseas. Quem são estas pessoas? O que fazem da vida? Em nome de quem levantam esse estandarte da moralidade? Ganhavam mais em analisar a sua vida pessoal, ler mais e procurar enriquecê-la. Certamente, sentir-se-iam mais felizes e os maridos delas também. Já que compraram a revista, podem folheá-la e aprender qualquer coisa.
Quanto à professora, espero que concretize o seu sonho, que provavelmente será facilitado com este mediatismo, já que a carreira de professora parece ter terminado.

Não directamente a ver com o caso, mas directamente a ver com a mentalidade portuguesa, aqui fica o relato rápido de uma situação caricata, na Finlândia, quando nos dirigíamos para a maravilhosa sauna, após o banho no lago gelado.
O espanto era geral, entre os portugueses,  pior ainda tratando-se de adolescentes (para mim os 18 anos ainda pertencem à adolescência) com as hormonas aos saltos, quando nos apercebemos que as boazonas altas, magras e louras iam para a sauna todas nuas!
Perguntámos, surpreendidas, se não tinham vergonha, se iam sempre nuas, ao que elas responderam, ainda mais surpreendidas, que sim. Insistimos nas perguntas e tentámos argumentar a nosso favor. Como era possível que frequentassem saunas, com pais, amigos, vizinhos, professores, sem serem vítimas daquele pudor que tão bem conhecíamos?
A resposta foi curta, directa, clara e penso que mudou vidas e mentalidades: "O problema não está na nudez, está na vossa cabeça. A nudez não é imoral, os vossos pensamentos é que são." E, assim, muitas sucumbiram ao calor insuportável que fazia o fato de banho queimar a pele. Uma nova vida de mamas ao léu.

Para mim, estão bem giras. Há coisa mais bonita que o corpo da mulher?

3 comentários:

Maldonado disse...

Excelente post, dada a sua assertividade.

1. De facto o caso da Bruna Real não tem ponta por onde se lhe pegue, sendo uma consequência da mentalidade salazarenta que ainda prevalece no nosso Inconsciente colectivo.

2. O que cada um faz fora do seu local de trabalho, desde que não seja nenhum ilícito penal, ninguém tem nada a ver com isso.
Desde quando é que a nudez desqualifica o desempenho profissional?
Se ela tivesse sido fotografada numa praia naturista, haveria escândalo na mesma, ainda que seja algo do foro privado que em nada interfere com a profissão.

3. O exemplo que deste da Finlândia é uma demonstração de que os escandinavos têm uma mentalidade bastante evoluída em relação à nudez.
Cá ela ainda é vista como algo associado ao sexo. Lá (e nos países evoluídos) não.

4. Enquanto se associar a nudez ao sexo, o preconceito prevalecerá sempre.

5. Há que exorcizar o fantasma do Tony de Santa Comba Dão das nossas mentes...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não há coisa mais linda, não senhor. Mesmo que às vezes tenham um buçozito a despontar...
Quanto ao alarido, a Brites lembrou-me uma cena ocorrida há dois anos nonoso Portugalinho de mentalidades tacanhas, mas não vou desvendar o post que ela irá escrever amanhã no CR sbre esse assunto.

Helena disse...

Obrigada pelas suas palavras, Maldonado.
Ainda assim, penso que o problema não está só em associar a nudez ao sexo/sexualidade. O problema está em pensar que o sexo é algo impuro, é pecado.
Aceitando que o sexo é uma coisa normal e que faz bem à saúde, seria mais fácil apreciar sem preconceitos a roupa com que nascemos.
Fico a aguardar esse post, Carlos.