02/07/2010

Great expectations

O Homem não foi feito para ser o melhor, o Homem não é perfeito, o Homem pode ser bom naquilo que faz e por ser bom sobrevive à custa disso, mas nunca é perfeito. Se fosse perfeito, seria um Deus e os deuses não existem. Quanto aos homens que se julgam Deus, esses há em abundância, são mais imperfeitos do que todos os outros, alheios ao que os rodeia, incapazes de se perceber a si mesmos, como se se olhassem através de um espelho desfocado, que elimina os defeitos. “Espelho, espelho meu, haverá alguém melhor do que eu?” É o inevitável peso que vem com certos prémios.
Claro que já sabem de quem falo, o Cristiano Ronaldo. O jogador, o melhor do mundo, mas lá dentro o Cristiano, o garoto da Madeira, labrego, burro, que não sabe falar, que, provavelmente, não sabe ler, que trabalha nas obras e as garotas apenas gritam com ele para reclamar dos piropos que lhes manda, de cima de um andaime. O seu bronzeado é o conhecido “bronze à pedreiro”, também usa brincos, mas são de pechisbeque. Não tem dinheiro para fazer limpezas de pele, de modo que continua a ser um Bexiguinha, como o Carolino da Aparição, e com orgulho, porque macho que é macho não faz limpezas, nem usa cremes.
Mas um olheiro recrutou-o, vendeu-lhe um sonho. Depositou nele todas as esperanças de uma nação, como se fosse um D. Sebastião encarnado, pronto para nos trazer de volta as glórias do passado. O Portugal antigo, que caiu num abismo sem fundo.
É o melhor. Recebe num mês o que os seus colegas de escola não ganham em dez anos, ou mais. As miúdas caem-lhe aos pés, porque além de ser o melhor, é o mais bonito. É sabido que o dinheiro compra a beleza. Acredita ser um Deus, tal qual o Bexiguinha. Como tal, basta dar o ar da sua graça para vencer. O deuses são sempre vencedores, a derrota é culpa dos restantes mortais.
Esquece-se o nosso Bexiguinha (perdoem-me a alusão ao Carolino, mas é sempre nele que penso, quando vejo imagens do CR) que é preciso ser um grande homem, para suportar as expectativas que um povo deposita num Deus. À custa dos deuses todos nós queremos ser grandes, todos nós queremos atingir o céu.
É preciso ser um grande homem para se recusar a ser Deus. Cair sobre si e admitir que erra e falha como qualquer ser humano, para dizer que não é nosso salvador. É preciso ser homem, apenas homem, para ser humilde e dizer: “Não sou capaz.”
Enquanto o homem não descer do pedestal, continuará a ser visto como Deus. Terá de carregar o peso das nossas expectativas às costas. Caso não desça, por constatação das suas capacidades, cairá sobre o seu próprio orgulho. Um tombo penoso da ribalta, pelo qual tantos outros passaram, para cair no anonimato dos deuses falidos, ao qual tantos não sobrevivem. Mais vale falhar como homem, do que morrer como um Deus.

2 comentários:

Cátia disse...

Lezinha, a filósofa. Muito bem. Revê as tuas teorias da cultura clássica, pois os deuses não morrem. Quem morre são os heróis, esses sim cheios da grandiosidades dos deuses, mas finitos e inevitavelmente traídos pela mesquinhez da sua humanidade. Lembra-te do filme Tróia, com o nosso Brad no papel de Aquiles, para alegrar a mente e contentar o espírito.
Bjs

Helena disse...

Não falo de mitologia greco-romana. Falo de deuses no geral. Já sabes que não tenho o mm conceito de religião do que tu. A pessoas não rezam a Jesus? Então, ele é um Deus. A pessoas não rezam aos santos? Então, eles são deuses. Nem compreendo o porquê da Igreja Católica se afirmar monoteísta.
Seja como for, a intenção é que um valente mortal ou bom samaritano, pode atingir a glória divina, mas nunca sem morrer primeiro. Obviamente que neste caso, falamos de uma morte figurativa.