
'“A criancinha não se pode afastar dois metros na rua por causa da Maddie, não pode trepar a uma árvore por causa da gravidade (...)”
A infantilização das crianças é o novo vírus que afecta pais, avós, tios, vizinhos, professores e quase toda a gente que contacta com miúdos no dia-a-dia. Há meio século, mandavam-se crianças de seis anos cavar batatas para o campo. Actualmente, deposita-se a batatinha na boquinha da criança e pede-se encarecidamente se não seria muito incómodo para ela mover o maxilar inferior para cima e para baixo de forma a mastigar o que tem na boca. Assim de repente, entre uma coisa e outra é capaz de haver um meio-termo. Digo eu.
Esta galinhice assolapada é completamente contraproducente, porque a única coisa que faz é produzir crianças irresponsáveis e temerosas da sua própria sombra. Daniel Sampaio explicava há uns tempos numa entrevista que vivemos num mundo onde um jovem passa directamente de estar proibido de ir sozinho à mercearia da sua rua para estar autorizado a sair à noite até às três da manhã. Enfiam-se os miúdos numa campânula durante 14 anos, até que um dia os progenitores decidem que está na hora de abrir a porta e eles caem de pára-quedas no mundo. Isso não pode ser bom.
Alguém se anda a esquecer da importância de cultivar a exigência e o sentido de responsabilidade. De tanto ouvirem falar de raptos, pedofilia, acidentes e todo um vasto catálogo de tragédias, os adultos passaram a olhar para o mundo como uma ameaça ao bem-estar dos seus filhos. Tudo é perigoso. Tudo é assustador. A criancinha não se pode afastar dois metros na rua por causa da Maddie, não pode trepar a uma árvore por causa da gravidade, não pode ser repreendida em público porque ainda acaba traumatizada, não pode espirrar porque é um princípio de pneumonia. Não há pachorra.
As pessoas esquecem-se que uma criança de seis anos está mais próxima de vir a ser um adulto do que de voltar a ser bebé. Se os pais se atrevessem um pouco mais, perceberiam que é muito recompensador falar com os miúdos respeitando a sua inteligência e estimulando-os a ir além daquilo que já são capazes de fazer, em vez de estar permanentemente a travar todos os gestos que nos parecem arriscados. Como é que podemos esperar que os nossos filhos cresçam confiantes se a cada passo insistimos em almofadar o pavimento? Dir-me-ão que por vezes pode correr mal. Pois pode. Mas é preferível um joelho aberto de vez em quando do que um "tem cuidado" a toda a hora.'
Por:João Miguel Tavares, Jornalista (jmtavares@cmjornal.pt)
7 comentários:
Olha este é primo do outro?
E o processo do Sócrates sempre seguiu em frente?
Parece-me humano que eu não queira que os meus filhos tenham as mesmas dores que eu tive (digo eu que não tenho filhos). Se sei que dói partir um dedo, não quererei que um filho meu parta um. Se sei que se pode morrer de amor, não quererei que partam o coração a um filho meu.
É puro egoísmo, porque se eles sofrem, nós sofremos e no fundo não queremos sofrer. Não é por eles, é por nós, talvez.
Se calhar, para aprender a educar bem, temos de aprender a ser mais animais e deixar que as nossas crias partam para a selva sozinhas.
A avaliar pela forma como trato os meus cães, quase de certeza que serei uma grande galinácea, caso um dia tenha filhos.
LOLOLOL - isto em relação ao teu comentário de "galinácea". LOL
Gostei do artigo. Acho que de certa forma o senhor tem razão. Se os pais protegem as suas criancinhas até à idade adulta, ou até estes saírem de casa, ou não saem de casa ou quando saírem são devorados literalmente pela selva que vivemos. Mas também os podemos proteger mostrando-lhes o que é este mundo com mil perigos à espreita, mas sem contudo reprimir a sua auto-aprendizagem.
Lembro-me de nos meus tempos de juventude pré-idade-adulta, ou seja, antes dos 18, em que ter permissão para sair era um martírio, havia requisitos paternais de pré-aviso de semanas e justificações seguidas de conversas de moral. Isso irritava-me, principalmente quando, por vezes, me convidavam e eu avisava o "paizinho" mesmo em cima do acontecimento...conclusão, ficava fechadinha em casa para ver o que era bom para tosse e não me livrava das conversas de moral.
Entre o grupo de amigos, muitas amigas queixavam-se do mesmo, mas mesmo assim saíam bem mais do que eu, e diziam que quando tivessem filhos os deixariam fazer tudo, davam-lhes a liberdade total, mesmo precocemente.
Ora, eu de certa forma não pensava assim, apesar da restrita liberdade que tinha. Quando nasceu o petiz lá de casa (10 anos mais novo do que eu), depois quando ele passou a ir para a escola e colégio, comecei a ser também "irmã-galinha", mais até do que os meus pais. Gostava de o acompanhar na escola, de o OBRIGAR a ESTUDAR, lol, e todas essas coisas. Gostaria de ter acompanhado mais, mas quando foi para o colégio, mudei-me eu para a universidade e assim já não pude "controlar-lhe" a vida. LOL
E esta protecção devia-se ao facto de eu saber o mundo que se vive fora das quatro paredes de nossa casa e por achar que os rapazes por vezes são bem mais influenciáveis do que as raparigas.
Não está nos meus planos ser "galinácea" porque não está nos planos procriar, como o Todo Poderoso manda, mas também nunca se sabe. A certeza é que se isso surgir no percurso desta curta vida, serei "galinácea" com bico e garras bem afiadas...mas moderna, claro está! LOLOLOLOLOL
Mas dos instintos maternais n te escapas! lol
concordo plenamente! é ridicula aredoma onde a sociedade está acolocar as crianças!
bem haja!
novo post em
http://forcanamaionese.blogspot.com
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