28/12/2010

Está lá?

Hoje, a minha tia da aldeia fez 69 anos. Bela idade! Se vos pudesse contar todos os pormenores, seria muito mais engraçado, mas como anda sempre gente doida por aí, não posso revelar muito. Só posso revelar que partilhamos um nome que origina muitas piadinhas e anedotas e que a minha morada actual é, no mínimo, caricata. Tenho sempre de a repetir duas vezes, com cara séria, para as pessoas perceberem que não estou a gozar. Tudo isto aliado aos 69 anos da minha tia cria uma conjuntura propícia ao desastre das piadas brejeiras, mas nada, absolutamente nada fazia prever o que me diriam, quando a senhora que faz limpeza à minha tia atendeu o telefone.
A Amélia é daquelas senhoras engraçadas da aldeia que usam lenço na cabeça, têm óculos de fundo de garrafa, fazem o bigode com gillette (porque uma mulher das beiras tem o seu orgulho!) e tem um sinal ou outro com uns pelitos proeminentes. Também se veste de preto, não sei porquê, porque o marido dela é vivo e a julgar pela idade dela, não obstante a genica, os pais terão morrido há muito. É senhora para ir à igreja e rezar o Pai Nosso como ninguém. É uma dona de casa exímia e como o marido tem um problema de saúde, que o impede de trabalhar, ela faz limpezas para cobrir as despesas. É trabalhadora e bem-disposta. E fala bom Português, caralho! (so sorry...) Perto dela a minha sogra parece ter a língua mais sagrada e imaculada à face da terra. E o que eu acho piada a estas cotas asneirentas! Juntam-se todas a cochichar, como se estivessem a rezar. De repente, sai uma caralhada bem alto. Seguem-se gargalhadas quase histéricas, algumas chegam mesmo a chorar. Depois coram e dizem baixinho, como se voltassem à reza: "Ai menina, desculpa. Nem vi que estavas aí, caralhos ma fodam!" Gargalhadas, outra vez. Mais pedidos de desculpa. Isto pode ofender muita gente, mas eu acho hilariante. Acho que se não fossem estes momentos, em que elas extravasam tudo, davam em doidas muito depressa. Pensando bem nisso, talvez já sejam doidas.
Então, a bem-dita Sra. Amélia de língua abençoada, por um anjo malandreco, atendeu o telefone da minha tia. Se a minha tia não estivesse quase paralisada, diria que estavam na festa rija. Quando ela atendeu, não reconheci de imediato a voz, pelo que perguntei donde falava. Seguiu-se um breve minuto de silêncio interrompido por esta preciosidade: "Olha fala do caralho, pr'ós colhões!" Tendo reconhecido de imediato a bela peça, respondi no mesmo dialecto, para me fazer entender: "Olha que caralho!... Ó Amélia, passe lá o telefone à minha tia!" Seguiram-se momentos de grande atrapalhação e risada, porque ela confundiu-me com outra pessoa e acabou por desligar o telefone sem querer. Depois pediu-me milhões de desculpas, com asneirada pelo meio, que não podia faltar, mas confesso que foi o ponto alto do dia.

Com isto acho que bati o recorde de asneiras num post.

2 comentários:

L.O.L. disse...

Helena. Ainda tenho na minha família umas quantas "Amélias" actualmente muito idosas (sou da Beira Alta e tá tudo dito). Penso da mesma maneira que tu. Ninguém consegue levar a mal essas asneiradas quando são vindas dessas pessoas que são de uma simplicidade encantadora. O grande problema é que essas gerações estão todas a desaparecer e um dia eu sei que vou ter saudades dessas "caralhadas inocentes".

Helena disse...

Pois, será como muita pena minha. Gosto muito delas.