30/04/2010

Esse doce cheiro a azedo

Se há coisa que me tira do sério é a perseguição e pressão que fazem para que eu opte pelos encantos da maternidade.
Há quem me chame uma cold bitch, eu sei que sou, não é um espanto. Há quem me chame egoísta e há quem me chame, simplesmente, estúpida, por não conseguir perceber que é esse o meu objectivo de vida.
Ora vamos lá esclarecer umas coisas. Até posso ser uma grande cabra, mas não sou fria, sou racional (bem, talvez sejam sinónimos). Não tenho culpa de não simpatizar com todas as crianças. Mas por que raio hei-de achar que todos os recém-nascidos são a coisa mais maravilhosa do mundo, quando eles parecem uns monstrinhos? São roxos, ou vermelhos, têm uma crosta esquisita na pele, a expressões deles são praticamente iguais (nunca sei se são filhos dos pais ou dos padeiros) e, sobretudo, são demasiado pequenos e frágeis, e eu sou trapalhona por natureza. Ah! E o cheiro... Céus! O Cheiro!... AZEDO!!!
MAS... como o próprio título indica, nem tudo é mau. Não sou a madrasta má de uma personagem da Disney. Lá há uma criança ou outra que me tocam o coração, o que prova que não é de gelo. A minha afilhada, por exemplo, que nasceu com displasia da anca e usou aparelhos e gesso durante o primeiro ano de vida, e a quem eu me dediquei e de quem cuidei como se fosse minha filha. Era um diabinho em forma de gente pequena, mas eu gostava dela. Era um bebé como tantos outros, mas era dela que eu gostava. Agora, é uma linda adolescente que se parece ter esquecido das vezes que limpei aquele rabo!
Lembro-me também de quando nasceu o filho de uma amiga. Fui visitá-la à maternidade e ia aterrorizada, porque tinha a certeza que o ia achar  igual a tantos outros e teria de fingir que era a coisa mais linda à face da terra, para não ferir os sentimentos da mãe. E não é que a criatura era mesmo linda e o meu coração de gelo se converteu em forma de lágrima?
Depois, claro, há todos aqueles casos de crianças irritantes, mal-educadas, obstinadas, que gritam, pontapeiam e fazem trinta por uma linha. Eu sei que a culpa não é delas, é dos pais, mas também não sou obrigada a gostar delas.
Agora, não é pelo facto de ter tido alguns encontros imediatos de 3ª grau de sucesso que tenho a obrigação de ter uma mãe dentro de mim. Não é egoísmo querer concretizar os meus objectivos de vida. Não é egoísmo não querer, pelos menos ainda, deixar de viver a minha vida para me dedicar a outra. Não é egoísmo querer ter condições para ter um filho, não falando tanto de questões monetárias, mas sim de tempo, para lhe dar a atenção que um filho merece, para não ser mais um, como tantos nesta cidade, que andam perdidos por essas ruas.
Sobretudo, não é estupidez não querer trazer um filho para este mundo cruel, só porque tenho um sistema reprodutor. As crianças precisam de carinho e afecto. As crianças são o nosso futuro. Estupidez é fazer filhos, atrás de filhos, quais máquinas parideiras, sem terem paciência para os criar e deixá-los à solta no mundo. Estupidez é ter um filho sem pensar na situação dramática de tantas outras crianças e saber que não o poderei proteger dessa realidade. Estupidez é pensar que sou mãe, só porque sou mulher.
Por enquanto sou e serei unicamente mulher. Talvez um dia mude de ideias e seja tarde demais, porque SIM, eu sei que o tempo não espera por mim, mas nada é irremediável. Quem sabe se o Michael me consegue convencer? Mas não creio, tenho grande capacidade de argumentação. ;-)

29/04/2010

Gagos famosos

Na minha juventude, havia uma certa tendência para gozar com gagos. Isso não se faz, eu sei. Éramos apenas garotos. O que vale é que a juventude de hoje em dia é muito melhor, menos preconceituosa. Até há uma cantora gaga super famosa...

28/04/2010

Tanto tempo a falar de casamento homossexual, para agora comermos todos no rabo.
Sem stress. Cá estaremos para aparar os golpes da corrupção.

27/04/2010

Gosto muito de mim, a sério que gosto...

... mas gosto mais de chocolate, morangos e outras coisas mais.
Aliás, se ainda não existe um livro daqueles parvinhos tipo "Sexo, Chocolate e Morangos", devia existir. A sério. Seria um sucesso. Ou talvez não... Também pode parecer uma piada rasca do Fernando Rocha. Ou pior, bem pior, tipo filme pornográfico de sexo anal, com afro-americanos.
Aaaaiiii... Esta esta língua perigosa, aliada à imaginação idiota, com uma pitada de quem trabalhou toda a noite são, de facto, uma mistura explosiva.
Se calhar, se gostasse mesmo de mim, não escrevia estas coisas.
Verdade seja dita, a idiotice não está só na minha escrita, está enraizada no meu ser.
O que vale é que num Modelo não muito distante, deve haver um segurança que volta e meia se ri à minha custa. Também quem manda passar música nos supermercados? Ora com este calor, a ouvir esta música...


... e com corredores vazios, sai palhaçada. Claro!
Talvez um dia, um segurança com sentido de humor, mande uma gravação para o Achas que Sabes Dançar, versão cepos portugueses.

26/04/2010

Flashback 12


De uma Islandesa para um Islandês. Esta é para ti Eyjafjallajokull. Vê lá se vais dormir...
Já agora, sabiam que a erupção deste pequeno pode durar anos? Sabiam que o degelo pode provocar graves inundações? Sabiam que, consequentemente, pode baixar a temperatura média da Terra? Sabiam esta erupção pode despoletar a fúria do grande Katla e aí, sim, teremos problemas sérios?

25/04/2010

Festejando a liberdade

Ontem, ouviram-se morteiros, a Grândola Vila Morena, o discurso do farmacêutico mais rico da cidade e arredores aka presidente da Câmara (ooops), cantou-se o Hino Nacional (ou pelo menos, a maioria ouviu a gravação), viu-se o deslumbrante fogo-de-artifício (após o discurso "estamos na merda", a lavagem cerebral) e gritou-se: "Viva o 25 de Abril, viva a liberdade."*
Felizmente, não era viva na altura do fascismo, nem sequer estava no projecto. Não consigo imaginar o que seria querer falar e não poder. Viver num teatro montado, com personagens e argumentos desactualizados e falsos. Viver com o medo de me tornar numa marioneta do Estado.
Hoje, numa realidade nem diferente, que muitos dos participantes do 25 de Abril dizem ser libertária de mais, podemos pensar o que quisermos, escrever o que quisermos, escolher o que quisermos (entre as inúmeras opções que nos são impostas), dizer, alto e bom som, o que quisermos. Mas o que adianta poder falar, se ninguém nos parece ouvir?



*e também: "Viva o Benfica."

24/04/2010

E paciência para a idade dos porquês??

Priminha irritante - O que estás a fazer?
Eu - Estou a traduzir.
Priminha irritante - O quê?
Eu - Uma coisa sobre facas japonesas.
Priminha irritante - Mas porque tens de fazer isso?
Eu - Daaahhh! Porque o dinheiro não cai do céu. Infelizmente, não me calha o euromilhões. Logo, tenho de trabalhar, ou seja, traduzir.
Priminha irritante - Mas porque é que tu queres o euromilhoes? Não tens dinheiro que chegue? Tens de ter.
Todos têm dinheiro a mais e assim tu também tens de ter.  Não são só os outros que têm. Também és tu. Tu és toda a gente, tu tens de ter dinheiro, todos têm dinheiro. Por isso tens ou não? Tens de ter. E eu sei que o dinheiro não cai do céu. Não és só tu que sabes tudo na terra, na aldeia, ou na cidade. Tens ou não dinheiro?
Eu - :-s Quantos anos tens?
Priminha irritante - Oito.
Eu - De certeza que não foste possuída por um alien?

P.S. Tenho de admirar a escrita desta pequena alien. Apesar de ter posto uns acentos aqui e ali, é incrível como ela escreve muito melhor que muitos adolescentes (incluindo a minha afilhada, cuja aspiração é ser empregada de limpeza. Perceberam? Aspiração... Empregada de limpeza...). Vamos ver quanto tempo esta escrita vai resistir aos SMS e ao MSN.

23/04/2010

Que filha da mãe de dia!

Fonix! Mais um bocado e os meus dedos arrancavam voo!
Vou ali espojar-me na relva para expulsar energia negativa e já venho.

22/04/2010

O meu alçapão, ou saco sem fundo

Matando a curiosidade de muitos seres masculinos e destruindo o misticismo criado à volta do conteúdo de uma mala de mulher, aqui fica o seu verdadeiro conteúdo:

- telemóvel (quando não fica a dormir em casa);
- óculos de sol (à la Jacquie O), muitas vezes fora da caixa;
- caixa de óculos de sol;
- spray para limpar óculos de sol;
- pacotes de lenços de papel, com e sem cheiro;
- lenços de papel usados (sorry... mas não deito papéis para o chão e nem sempre se encontram caixotes do lixo);
- um moleskine;
- uma agenda;
- a carteira dos documentos e "carcanhol" (não aderi às carteiras dos pretos. Pronto, lá está a nossa língua a fazer das dela. Isto lembra-me de uma situação caricata que tenho de partilhar mais tarde);
- molas para o cabelo (à solta, claro);
- elásticos para o cabelo;
- tabaco (só para as horas de grande stress, ou possível euforia originada por um coquetel a mais);
- um espelho;
- comprimidos (muito provavelmente fora de validade);
- talões de supermercado;
- vales de desconto;
- perfume;
- batons (sim, batons. Há os de protecção e os de maquilhagem);
- verniz;
- listas de compras;
- recados;
- post-its colados onde não devem;
- SOS Anti-Spot, agente anti-séptico (não se ponham com ideias, é uma cena para exterminar as borbulhitas que as hormonas trazem, volta e meia)
- tampões;
- chaves da casa antiga;
- chaves da casa actual;
- chaves do carro;
- creme para as mãos;
- caneta;
- uma míni fita métrica (o que posso dizer? Sou uma mulher prevenida);
- um piercing suplente;
- A morte de Bunny Munro (para as horas de espera nas finanças e SS);
- last but not least, umas alças de sutiã... (há coisas que nem eu sei explicar)

Está explicado o porquê do Michael dizer que a minha mala é um alçapão, ou saco sem fundo. Não digo que não tenha uma certa razão. Foram várias as vezes em que o desespero me levou a despejar o seu conteúdo para o chão, com o intuito de encontrar o que precisava.

Enfim, faz parte do meu ser :)

20/04/2010

É primavera

Estou feliz!

Precisava mesmo, mesmo de um destes. Isto de desperdiçar o pouco tempo, que tenho livre, a fazer limpezas, irrita-me sobremaneira.
Está na altura de limpar aquele forno, que não viu esponja desde que foi estreado.
Como li por estas bandas, também a mim me custa ter alguém a meter o nariz nas minhas coisas, tenho um cão tarado, que pensa que é gente, e gosto de ter tudo à minha maneira. Convenhamos, com a falta de tempo, a minha maneira tem sido caótica. Lá terá de ser. Venha daí o número, Tânia.

19/04/2010

De momento, não estou disponível. Por favor, deixe a mensagem no "balsemeiro" após o bip.

Contextualizando:
Sogra: Estou farta de ligar à tua madrinha, mas ela não atende.
Micha: Quando é que lhe ligaste?
Sogra: Liguei-lhe de manhã e há pouco, vai sempre para o "balsemeiro."
(momento de silêncio e troca de olhares cúmplices)
Eu e Micha: Foi para onde? BAAAAHHH AHAHAHAHAHAHAH
Eu: Se calhar, foi fazer companhia ao "INIMEN."
(gargalhadas, lágrimas e muita dor de barriga)
Micha: Diz lá isso em condições. "Voice..."
Sogra: "Boici..."
Micha: "Mail."
Sogra: "Meid."
Micha: "Voicemail."
Sogra: "Bócemeid."
(mais gargalhadas, lágrimas e dor, muita dor)
Sogra: Olhem... #$@*#!
Eu e Micha: AHAHAHAAHAHAHAAHAH!

A sério, devia escrever um livro sobre o dialecto da Albergaria city. Não tem explicação.

16/04/2010

Estas gajas são tão, tão estúpidas

Será que esta otária não percebe, que ao dizer que a pila do garoto tem o diâmetro de uma piza familiar (deduzo que ela não frequente o Mr. Piza, senão seria mais um motivo para estar calada), está a dizer, ao mesmo tempo, que tem algo semelhante a um túnel do Canal da Mancha? A sério...
E depois é gente sem imaginação, porque assim que ouvi falar em piza, só consegui imaginar algo parecido com aquela fronha manchada de solário e acne, sendo a metáfora a polpa de tomate, mozarela e pepperoni.

Ainda falando de gajas parvas, devia haver uma multa pesada para quem adormece, de repente, ao volante.
Vai uma pessoa descansada da vida, distraída, a ouvir falar da pila monstruosa do Ronaldo, de repente, vê a vida a passar-lhe à frente, enquanto é forçada a escolher entre: traseira do carro da gaja estúpida que adormeceu ao volante, ou poste/ vala.
Felizmente, o ser lá deve ter apanhado o que queria, ou ter desligado o telemóvel e eu safei-me de me tornar numa panqueca, o que seria uma pena numa jovem roliça como eu.
Enfim, asneiras ditas, respiração normalizada, energias negativas exorcizadas, chego a casa em segurança. Antes de continuar a minha tradução sobre a Síria e o esqueleto do camelo, deixo uma dedicatória às gajas estúpidas.

14/04/2010

Love Talk (2)

Micha - Vê o que é isto na cabeça.
Eu - É uma borbulha.
Micha - E aqui?
Eu - Sabes o que é isso? São os neurónios a tentarem salvar-se da merda que tens na cabeça.

P.S. Somos assim, mas gostamos muito um do outro. A sério.

Flashback 12







Enfim, coisas da adolescência.
Só para que conste, a minha sogra é um anjo :)
Afinal, a mão não está morta. Está só meio zombie. Poderei pedir uma indemnização por danos morais ao médico incompetente que me fez chorar? É que não sou gaja de gastar água em vão. É um bem precioso.

13/04/2010

"Tesourinhos" V

"Eu que sou cabra macho, e dos bons, não tou pegando nem piriguete."
Palavras para quê?

Maria Papoila? Oui, c'est moi.

Talvez por ser palerma e trapalhona como a personagem, ou só mesmo porque gosto de papoilas.
Eis, então, que a minha preguiça para arrancar as ervas daninhas do jardim é recompensada com uma papoila. E eu que pensava que tinham desaparecido!
Logo depois, o vento matreiro desferiu-lhe um golpe certeiro, e a coitada espalhou a sua graça pelo chão.
Espero que a chuva não faça das suas, para os rebentos alegrarem o jardim.


Enquanto aproveitava os dias mais longos, para semear coisas, que provavelmente nunca nascerão, tive um encontro imediato com o bicho mais esquisito que alguma vez vi.
Não sou de agarrar bichos, mas não resisti a tirar-lhe uma foto. De certeza que se inspiraram neste bicho, quando inventaram as brocas.
Fiquem descansados, os que, como eu, não fazem mal a uma formiga. O bicho foi cuidadosamente devolvido ao seu habitat, debaixo da terra.



12/04/2010

Porquê? Mas porquê?

A engrenagem à segunda-feira é tão, tão lenta...

"Tesourinhos" IV

Já não punha aqui um tesourinho há muito.
Aqui fica uma sugestão de frase romântica, para quem quiser arrebatar a sua amada: "Meu dengo, coça minhas frieira."
Estão a ver o que eu passo?
Contextualizando, isto é dito por um baiano, numa cena "romântico-machista à lá baiano", e, para quem precisa de ajuda, quer dizer: "Meu amor, massaja-me os pés."
É por isso que gostava de ir à Baía...

09/04/2010


Uma batalha ganha. Daqui a pouco, quem sabe, começam a ser tratados como gente que não sofre de uma doença contagiosa.
Agora, apresento três situações:
1) Se eu fosse lésbica e quisesse ter um filho, seria uma coisa tão fácil como estalar os dedos.
2) Se eu fosse gay e quisesse ter um filho, não seria difícil encontrar uma barriga de aluguer, por tuta e meia, ou até uma amiga compreensiva, quem sabe.
3) Se fosse heterossexual (homem ou mulher) tivesse uma relação, tivesse filhos e, mais tarde, descobrisse que era homossexual, os filhos continuavam a ser meus. Certo?


Perante estas situações e já que os homossexuais estão impedidos de adoptar, o Estado tirar-me-ia os meus filhos, sobrepondo o seu medo de "contágio" ao meu direito de paternidade/ maternidade biológica?
Haverá algum sentimento reprimido entre quem dita estas leis?
Porque será que ao fim de tantos anos de separação entre Igreja e Estado, aquela moral falsa continua a ditar regras e "bons costumes"?
O Estado apenas tem de se certificar de que todos nós somos iguais perante a lei, é um direito que nos assiste. Não há que rever a constitucionalidade disto, Dr. Cavaco Silva, está inscrito da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

07/04/2010

Aaaahh... Então, está tudo explicado!

Sempre me disseram que tenho um ar oriental. Sempre pensei que isso se devia a um vírus qualquer que o meu pai trouxe de Macau.
Afinal, descobri neste relato fantástico (aliás, todos eles são fantásticos) que isso se deve às minhas pernas tortas! Apenas uma coincidência genética infeliz.

A dona de casa perfeita contra-ataca

Achei que se pusesse um pouco de Fairy na máquina de lavar louça, aquilo seria mais eficiente.
Resultado: Uma festa da espuma na minha cozinha, tal e qual como numa comédia romântica!
Foi pena não ter tirado fotografias, porque contado ninguém acredita.

06/04/2010

Este programa é uma comédia


Instalei o Workrave para me obrigar a parar de vez em quando.
Já sei que não sou a super-mulher. Agora, tenho a dor constante para me recordar disso e um software chatinho.


OK! Tu mandas!

05/04/2010

Sobre a histeria adolescente

EMO - És Mimada(o) e Otária(o), mas os teus pais ainda são piores!!!

04/04/2010

Não consegui arranjar um título para este post.
A minha cidade é um antro de drogas, sempre foi e parece que sempre será. Não é difícil arranjar droga gratuitamente e é difícil arranjar boas companhias, com tudo isto são os mais fracos, os mais frágeis que pagam a dura factura da toxicodependência.
Sempre estive muito perto desse mundo. Seria impossível não estar, já que tudo se passa a céu aberto, o tráfico e a prostituição, em frente à esquadra, o consumo, sem pudor, em qualquer lado. Sempre conheci o monstro, sempre conheci consumidores, e é quase impossível não conhecer um ou outro traficante, mas de alguma forma, sempre me mantive suficientemente afastada para não cair nessa teia.
É frustrante quando um conhecido cai nas garras do vício e a nossa impotência é indescritível perante o seu desespero, quando percebe que caiu num poço sem fundo. É de partir o coração, ver aqueles rostos deformados, aqueles corpos quebrados, quase moribundos.
Acontece, vezes e vezes sem conta. Não consigo perceber o que pode levar uma pessoa a optar por esse caminho de destruição certa, principalmente, quando já teve um exemplo próximo do resultado. Não consigo perceber a agonia extrema que pode levar alguém a enveredar por esse suicídio lento e mórbido. Não consigo perceber e se calhar nem quero, porque quando perceber, talvez seja tarde demais para mim também. Imagino que sintam uma dor tão profunda, que apenas se torna suportável acordar para outro dia com uma dor física tão excruciante que consiga anular a dor emotiva, ainda que seja por breves instantes, e a luta para matar a sede do vício é, então, um motivo para viver nesse estado de corpo-quase-morto e espírito-quase-vivo.
Aprendemos a conviver com este flagelo, aprendemos a lidar com ele psicologicamente, arrumamo-lo numa gaveta, bem escondida, no nosso (sub)consciente. Fingimos não ver, fingimos não sofrer e com isto seguimos a nossa vida, como se nada se passasse, envolvidos nos nossos pseudo-problemas, atarefados com os nossos trabalhos e carreiras, negligenciando as coisas simples da vida e que, quando tudo falha, são o que mais importa.
Um dia, a tragédia acontece. Perguntamo-nos o que se passou. Negamos. Dizemos que não pode ser. A triste constatação da desgraça, mais uma vez. Poderíamos fazer algo? Talvez. Agora, é tarde demais.
Quem me dera ter feito algo mais...