Se há coisa que me tira do sério é a perseguição e pressão que fazem para que eu opte pelos encantos da maternidade.
Há quem me chame uma cold bitch, eu sei que sou, não é um espanto. Há quem me chame egoísta e há quem me chame, simplesmente, estúpida, por não conseguir perceber que é esse o meu objectivo de vida.
Ora vamos lá esclarecer umas coisas. Até posso ser uma grande cabra, mas não sou fria, sou racional (bem, talvez sejam sinónimos). Não tenho culpa de não simpatizar com todas as crianças. Mas por que raio hei-de achar que todos os recém-nascidos são a coisa mais maravilhosa do mundo, quando eles parecem uns monstrinhos? São roxos, ou vermelhos, têm uma crosta esquisita na pele, a expressões deles são praticamente iguais (nunca sei se são filhos dos pais ou dos padeiros) e, sobretudo, são demasiado pequenos e frágeis, e eu sou trapalhona por natureza. Ah! E o cheiro... Céus! O Cheiro!... AZEDO!!!
MAS... como o próprio título indica, nem tudo é mau. Não sou a madrasta má de uma personagem da Disney. Lá há uma criança ou outra que me tocam o coração, o que prova que não é de gelo. A minha afilhada, por exemplo, que nasceu com displasia da anca e usou aparelhos e gesso durante o primeiro ano de vida, e a quem eu me dediquei e de quem cuidei como se fosse minha filha. Era um diabinho em forma de gente pequena, mas eu gostava dela. Era um bebé como tantos outros, mas era dela que eu gostava. Agora, é uma linda adolescente que se parece ter esquecido das vezes que limpei aquele rabo!
Lembro-me também de quando nasceu o filho de uma amiga. Fui visitá-la à maternidade e ia aterrorizada, porque tinha a certeza que o ia achar igual a tantos outros e teria de fingir que era a coisa mais linda à face da terra, para não ferir os sentimentos da mãe. E não é que a criatura era mesmo linda e o meu coração de gelo se converteu em forma de lágrima?
Depois, claro, há todos aqueles casos de crianças irritantes, mal-educadas, obstinadas, que gritam, pontapeiam e fazem trinta por uma linha. Eu sei que a culpa não é delas, é dos pais, mas também não sou obrigada a gostar delas.
Agora, não é pelo facto de ter tido alguns encontros imediatos de 3ª grau de sucesso que tenho a obrigação de ter uma mãe dentro de mim. Não é egoísmo querer concretizar os meus objectivos de vida. Não é egoísmo não querer, pelos menos ainda, deixar de viver a minha vida para me dedicar a outra. Não é egoísmo querer ter condições para ter um filho, não falando tanto de questões monetárias, mas sim de tempo, para lhe dar a atenção que um filho merece, para não ser mais um, como tantos nesta cidade, que andam perdidos por essas ruas.
Sobretudo, não é estupidez não querer trazer um filho para este mundo cruel, só porque tenho um sistema reprodutor. As crianças precisam de carinho e afecto. As crianças são o nosso futuro. Estupidez é fazer filhos, atrás de filhos, quais máquinas parideiras, sem terem paciência para os criar e deixá-los à solta no mundo. Estupidez é ter um filho sem pensar na situação dramática de tantas outras crianças e saber que não o poderei proteger dessa realidade. Estupidez é pensar que sou mãe, só porque sou mulher.
Por enquanto sou e serei unicamente mulher. Talvez um dia mude de ideias e seja tarde demais, porque SIM, eu sei que o tempo não espera por mim, mas nada é irremediável. Quem sabe se o Michael me consegue convencer? Mas não creio, tenho grande capacidade de argumentação. ;-)








