A crise económica está em todos os telejornais, mas eu há uns dias vi-a. Descobri-a num corredor do supermercado onde se vendem pacotinhos de línguas de gato.
A velhota vestia um casaco de malha gasto e sujo. Devia ter uns sessenta anos, talvez mais, os pés e os tornozelos estavam inchados, caminhava muito devagar e falava muito depressa. Tinha uma costeleta na mão, queria levá-la sem pagar e tentava explicar-se à gerente do supermercado. Deixei-me ficar, a cuscar a conversa.
A gerente da loja é uma mulher sofisticada e mesmo muito, muito boazona. Lembra vagamente uma daquelas velhas caricaturas da revista Gaiola Aberta, mas com melhores cores. A gerente da loja caminha de um lado para o outro como um sentinela de mini-saia. Estica esplendorosamente as pernas, de tal maneira que muitas vezes me pergunto se também não tem mamilos nas solas dos pés.
Naquela voz de bagaço notava-se uma mistura de impaciência e familiaridade: «Você é sempre a mesma coisa!», dizia para o casaco de malha gasto. «Sabe muito bem que não pode levar nada sem pagar!»
A velhota não se deixou intimidar, pois tem uma filosofia de vida que consiste em desafiar, com matreirice, as próprias fundações em que assenta a nossa sociedade. Ofendida e cheia de raiva, devolveu a costoleta à gerente e respondeu: «E você é sempre a mesma cabra! Qual é o problema de eu não ter dinheiro se tenho fome? Maldita sejas. Porca. Cabra.»
A gerente do supermercado suspirou e virou-lhe as costas, desejosa de pegar num telemóvel e contar a uma orelha todos os detalhes da horrorosa experiência. A crise económica de que tanto se fala nos telejornais também a afectará, pois já não poderá comprar aquela saia espectacular que viu na Pinkie.
A velhota seguiu caminho, mas não saiu do supermercado, dirigindo-se muito lentamente à zona do café.
O café – e todo o supermercado – tem cartazes onde se anuncia uma relação especial entre o supermercado e nós, pessoas clientes. «O nosso compromisso é consigo», anuncia-se com frequência. A velhota prepara-se para testar essa preciosa relação, aproximando-se do balcão e pedindo um croissant com queijo. Desconfiada dos modos esfarrapados da senhora, a empregada da loja anuncia o decreto do costume: «tem de pagar primeiro».
Nenhuma regra é capaz de fazer desabar a sua força de vontade. Qual teria sido o destino desta mulher se há muitos anos alguém tivesse notado a sua notável capacidade de se desenrascar, a coragem e ousadia, a óbvia inteligência?
Fazendo-se de muito surpreendida, a velhota explicou: «Mas, menina, a gerente é que me disse que eu podia vir aqui e aviar-me de graça!». Se esta tivesse pegado, a velha poderia ter saído dali como a heroína das aldrabonas.
A menção de uma figura da autoridade deixa a pobre empregada ligeiramente confusa, mas depressa recupera a compostura: «Não pode ser, minha senhora, não se pode levar nada sem pagar». «Mas a outra disse-me que podia!», insiste a velha.
O outro empregado resolveu socorrer a colega. «Nós não podemos aviá-la sem pagar, a senhora tem de ir ali à caixa número 1, está a ver ali, vai lá e pergunta primeiro se pode.» Não sei se o homem utilizou o estratagema para despachar a velha ou usou a velha para pregar uma partida ao colega da caixa número um: era um mero aprendiz de feiticeiro, claro, e a velhota não arredou pé.
«Mas eu tenho dinheiro!», disse.
«Então pague!», respondeu o empregado.
«Não posso!»
«Não pode porquê?»
«Porque tá no banco!»
«Então vá levantá-lo!»
«Não posso. É sexta-feira, já fechou!».
«Não fechou nada, só fecha às três horas.»
A velhota queria um pouco de crédito, não sobre o hipotético dinheiro que tinha no banco, mas sobre a sua própria condição de ser humano. Perante o dinheiro, o valor e o poder do dinheiro que dilui os nossos sentimentos numa pasta de indiferença, não passamos de escravos. Amamos o dinheiro. Temos medo do dinheiro. Somos escravos apaixonados e medrosos.
Ela não quis ou não soube explicar a natureza do seu crédito, e ninguém estava com muita vontade de perceber. Um dos clientes mostrou-se interessado, mas logo se percebeu que a intenção era meter uma bucha na conversa, especialidade tipicamente portuguesa: «Para comprar alguma coisa é preciso dinheiro, minha senhora!»
Falou em voz alta, sorrindo à procura de aprovação para a sua extraordinária capacidade em debitar verdades universais.
A velhota ignorou-o com sensatez e voltou a pedir o croissant à empregada. Pareceu já sem energias, prestes a desistir. A jovem rapariga, perturbada com a situação, voltou a dizer que não podia ser, «não pode levar nada sem pagar».
A mulher afastou-se, finalmente vencida, vociferando as mesmas conclusões «Porca, cabra, maldita», saiu do supermercado no passo doloroso e miserável de sempre, e pôs-se lá fora a estender a mão às sombras apressadas que passavam.
Este lindo texto do
Marco Santos descreve uma realidade cruel, cada vez mais comum no dia-a-dia. Quantos de vós se depararam com situações semelhantes? A quantos de vós o pedinte causou empatia? Quantos de vós o ajudaram, ainda que só tivessem de despender uns míseros cêntimos?
Vejo que a maioria das pessoas reage como se fosse interpelada por leprosos, muitos tentam ignorá-los, como se não fossem pessoas. Aliás, possivelmente, a maior parte das pessoas ficam mais sensibilizadas com um cão abandonado, do que com uma criança cigana a pedir esmola.
Nesta situação que o Marco descreve, custava muito aos empregados terem pago a porra do croissant à mulher? E o Chico Esperto, em vez de tentar humilhá-la, não poderia ter pago um pão à senhora? Não se sentiria muito melhor ao chegar a casa? "Hoje, fiz uma boa acção" em vez de "Hoje, gozei com uma pobre."
Não consigo compreender como as pessoas ficaram tão insensíveis. São capazes de passar por um casal, em que o homem bate à mulher e nada fazem. Já me aconteceu em Lisboa. Impedida pelos meus colegas de intervir, avisei o polícia que se encontrava a menos de 10 metros. "Deixa-os estar. Eles resolvem isso." - disse ele. Pois claro, quando ela estiver na morgue.
Passam na rua e vêem pessoas estendidas, nem sequer se dão ao trabalho de ver se estão vivas. Fiquei completamente chocada com o caso daquela senhora, que acabou por falecer, que ficou ali estendida no chão, depois de ter sido agredida, e as pessoas que por ela passavam nada faziam. FUCK!!! Pensavam o quê? Que estava a descansar?? Até um predador implacável da selva é capaz de ser mais sensível do que estas pessoas. O que é isto? Em que mundo vivemos?
E depois há sempre as situações em que a "pobreza leprosa" é contagiosa. Sempre que uma criança me vem pedir esmola, eu dou! Sim, dou e não quero saber do: "Ai... Assim eles não te largam. Ai... depois não vão trabalhar." Idiotas! São crianças!
Falo com elas, porque são pessoas. Quero saber onde moram, se andam na escola, em que escola andam, quantos anos têm. Porque me preocupo, porque são pessoas, porque são crianças, porque se a puta da adopção não fosse tão complicada e as merdas das tradições do Homem não fossem tão imbecis, eu trazia-as para casa. Dava-lhes um tecto e amor, que é o que o ser humano precisa.
Enquanto isto se passa, as pessoas passam, olham, riem, gozam, abanam a cabeça em sinal de desaprovação. Olham para mim, como se estivesse louca, como se tivesse contraído uma doença grave, como estivesse alimentar um mal.
Pois, tenho novidades. A pobreza é um mal social, é sim, mas não é ao fecharmos os olhos que ela vai desaparecer. Quando menos esperarem, ela entra-vos pela porta a dentro. Quando todas as vossas, supostamente, firmes fundações capitalistas caírem por terra, tornar-se-ão mais sensíveis? Começarão a ver o que realmente interessa?