Recebi este vídeo, num e-mail de Boas Festas, com a seguinte mensagem: "Como o que aconteceu "Na tal" noite se transformou numa ferramenta de marketing..."
Eu não diria melhor, nem lá perto, mas fiz, obviamente, o meu filme. Se Jesus nascesse em 2010, a Maria e o José seriam, certamente, estrelas de Hollywood e, sem contar com todos os gadgets que aparecem no vídeo, poderiam contar com os media para a difusão do nascimento. Todos nós poderíamos vê-lo, em directo, a sair das entranhas da mãe, na Clínica de Estética do Pai Natal da Coca-cola (Ámen!), para a Maria poder fazer logo as intervenções necessárias, para pousar nua para a Playboy, na semana seguinte. Tudo isto seria patrocinado pelos Reis Magos dos três principais canais televisivos, que "ofereceram" chorudas quantias e um presépio de luxo, algures numa ilha artificial do Dubai.
Jesus seria o alvo das objectivas, onde quer que fosse, desde os primeiros passos, ao primeiro beijo, talvez até a sua primeira queca fosse filmada e colocada na Internet, ou fosse relatada por uma Maria Madalena qualquer, nas manchetes de toda a imprensa cor-de-rosa: "Ele engravidou-me e abandonou-me."
Faria filmes, lançaria discos de hip hop com o Snoop Dogg e o Dr. Dre. Usaria bling-blings de santinhos de ouro branco e diamantes, pendurados em grandes fios ao pescoço, como os seus colegas de trabalho usam os cifrões. Ou numa versão mais emo, usaria gargantilhas negras e bandoletes de espinhos. Pintaria os olhos de negro e usaria a sua música para expressar toda a dor da raça humana.
Até que, enfim, atingiria a maioridade e tudo mudaria. Cansado de internar a mãe em clínicas de desintoxicação, que por esta altura estaria irreconhecível, devido ao excesso de plásticas. O seu pai, após o divórcio, deixou de dar notícias. Tinha partido numa missão de descoberta pessoal, com uma miúda 30 anos mais nova, que não estava interessada no seu dinheiro, mas sim na sua espiritualidade. Eis, então, que o peso da fama se abateria sobre Jesus. Sozinho, sem poder contar com a família despedaçada, nem com os três Reis Magos, que depressa encontraram outra criança para o seu Truman Show, vê nas drogas uma fuga para os seus problemas.
Jesus não teria retratos seus, em casa, não teria vídeos caseiros, nem precisaria. A sua vida fora meticulosamente exposta nos jornais, nas revistas, na televisão. Qualquer pessoa entrevistada, no meio da rua, saberia melhor de qualquer pormenor da sua vida do que ele, que sempre viveu alienado da realidade a que havia sido submetido, desde o momento do seu nascimento, o ano zero, o ano em que tudo mudou, o ano em que passámos a ser marionetas de uma audiência voraz.
Para ele, o ano zero seria este, o ano da descoberta do mundo, como aquela história do príncipe chinês, que sempre vivera entre as paredes do palácio e que, um dia, quis saber como era o mundo. O sofrimento de Jesus dissipou toda a névoa cor-de-rosa que envolvia a sua vida. Conseguiu ver, pela primeira vez, conseguiu sentir. E já que falamos em sentir, verdade seja dita, grande parte do seu sofrimento era infligido pelas drogas, agora que a fase da euforia tinha passado, e que dependia delas para viver.
Entre festas, orgias, álcool e drogas, Jesus tentaria a todo o custo apagar da sua memória o retracto da realidade, mas os media estavam sempre lá, para o contrariar. Insatisfeitos com o caminho que o menino-prodígio tinha tomado, foram os primeiros a crucificá-lo. Jesus não resistiria à pressão e acabaria por ser encontrado, um dia, sozinho no seu apartamento, com o que aparentava ser uma festa de narcóticos, afogado no seu próprio vómito, como acontecera com tantas outras estrelas antes dele.
Teria trinta e poucos anos. Todos se apressariam a dar a sua opinião, aproveitando as luzes da ribalta. Até os Reis Magos voltariam, prometendo restituir a vida de luxo a Maria, caso ela vendesse os direitos da sua vida e do seu falecido filho para uma nova produção hollywoodesca: Jesus, uma estrela cadente. Perpetuando o mito por gerações e gerações, até ao nascimento do próximo messias de Hollywood, claro.