12/03/2011

Quem és tu, geração à rasca?

Costumava ler, em vários blogues, críticas à juventude, por causa do seu conformismo e inércia. De repente, alguém decidiu cantar estes males e ela decidiu sair da toca. Por causa disso, agora é acusada de ser mal-agradecida, que tudo tem e a nada dá valor.

Acho que não vale a pena falar nas dificuldades das gerações anteriores. Não imagino como seria viver sem liberdade e sem poder estudar, como também não imagino como será viver na pobreza de ter de partilhar uma sardinha com uma família de 5 ou 6. Essas gerações têm todo o mérito. Afinal de contas, foram eles que tornaram possível o nosso nível de vida, que é, sim, muito superior.

Se comparar a minha vida até hoje, com a dureza da vida dos meus pais, a minha vida foi incomparavelmente muito mais fácil, o que não significa que tenha sido um mar de rosas. Tive de conciliar o trabalho com os estudos, para conseguir o meu canudo. Não me foi dado. Não vivi às custas dos papás. Como eu há muitos outros que lutaram para chegar onde chegaram. Outros há que sempre tiveram tudo de bandeja. Uns nascem virados para a lua, outros não. Uns tiveram pais que os ensinaram a batalhar, outros foram educados a serem dependentes.

O importante é que não chegámos aqui sozinhos. Viemos de palhotas ou berços dourados, de pais que nos educaram bem ou mal, de escolas que nos prepararam ou não, de profissões passadas que nos frustraram ou que nos formaram. O importante é que chegámos aqui e estamos todos juntos. Todos juntos num país à beira da bancarrota, que ao longo de todos estes anos não soube aproveitar os milhões, que foram injectados, para progredir. Não soube criar condições para o futuro e continua a não saber.

Gostam de dizer que somos burros, que não sabemos ler e que não temos as habilitações necessárias para trabalhar, mas não somos responsáveis pelo que nos foi leccionado nas escolas. Não temos culpa de que não adaptem o sistema educativo às necessidades do mundo laboral. Não temos culpa se os professores facilitam, ou não a vida aos estudantes. Também não temos culpa de que o compadrio se tenha instalado no país e que inúteis ocupem cargos que deveriam ser ocupados por gente competente, que tem de ganhar a vida a dobrar roupa da Zara.

Não, não há problema nenhum em dobrar roupa. Já passei roupa em part-time, já servi à mesa, já esfreguei o chão de uma charcutaria, já atendi muita gente maldisposta em lojas e call-centers. Fui evoluindo, trabalhei em escritórios, até que terminei o curso e consegui finalmente trabalho na área que desejava. Tenho 30 anos, já trabalhei bastante e todas estas coisas fizeram de mim a pessoa competente, versátil e responsável que sou hoje. De tal maneira, que vou a uma entrevista para um cargo de Relações Internacionais e ficam entusiasmados e dizem que tenho o perfil indicado e depois oferecem um salário de 500€ mais subsídio de alimentação.

Por isso, quando eu e outros colegas meus, que chegam a acumular 3 trabalhos, decidimos dizer que já chega, que queremos melhores condições, não me parece pedir muito. Não é pedir muito que nos façam um contrato de trabalho, que paguem salários justos, que os trabalhadores independentes parem de ser constantemente penalizados, que tenhamos acesso à segurança social no desemprego, na doença, na maternidade e na reforma.

Isto pensando no futuro, aquele que querem lixar a todo o custo, anunciando que os juros da dívida pública serão incomportáveis no futuro. Fazendo contratos milionários para obras desnecessárias, que teremos de ser nós a pagar. Continuando a pagar falências dos bolsos dos contribuintes, quando os multimilionários que as causaram continuam a usufruir dos seus carros de luxo, casas com piscina e juros das contas offshore, sem nunca serem chamados à justiça.

Estamos todos juntos nisto e não somos os únicos que nos preocupamos com a insegurança do presente e a incerteza do futuro. Podem juntar-se a nós todos aqueles que gostariam de ter direito a uma reforma digna e justa, todos aqueles que gostariam de trabalhar, mas são tratados como produtos fora de validade. Somos todos, um pouco por todo o mundo, aqui e lá, novos e velhos, a geração à rasca e temos de lutar por um Estado de justiça social e igualdade de oportunidades para todos.

Amanhã (ou hoje, porque comecei a escrever isto no dia 11), levantem o rabo do sofá e façam-se ouvir. Decerto que todos teremos algo para dizer que merece ser ouvido.

4 comentários:

folha seca disse...

Helena
Não subscrevo o seu texto, porque seria abusivo, dado que pertencemos a gerações diferentes.
Agora que concordo, concordo. Até pelo realismo contido no seu post.
Cumprimentos

Helena disse...

Mas pode subcrever na mesma, o texto é destinado a todas as gerações. :)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tenho imenso respeito pelos jovens e já fiz várias reportagens com jovens empreendedores que foram à luta e não se acomodaram a ficar na casa dos pais, à espera que o emprego adequado ao seu perfil lhes caísse do céu. Tenho, na minha família, exemplos de sobrinhos que começaram do zero, sem licenciaturas e são hoje profissionais e empresários de grande mérito. No entanto, não é admissível que uma das quixas dos jovens seja "falta de solidariedade intergeracional". Isso é um insulto aos pais que, tantas vezes, se sacrificaram por eles.
ressalvado isto, concordo com o teor do seu post, Helena.

Helena disse...

Quer dizer, por um lado penso compreender essa "falta de solidariedade intergeracional". É que é a geração dos nossos pais que está no poder. São eles que estão a tomar todas estas medidas que nos prejudicam agora e irão prejudicar no futuro. Por outro lado, é injusto pelo precisamente pelo motivo que refere. As palavras são ingratas e nem sempre exprimem bem o que queremos dizer. Como não sou a autora dessas palavras, ficam ambas as hipóteses no ar.