23/05/2011

À conversa com Noberto Barroca

A propósito da estreia da peça de teatro Inspector Impostor (no seu original O Inspector Geral), no Sport Operário Marinhense, tive a oportunidade de falar com o encenador Norberto Barroca.

Para quem não sabe, Norberto Barroca, nasceu na Marinha Grande, onde começou a fazer teatro. Desde muito pequeno que o pai o levava ao teatro e desde então adquiriu o gosto pelos palcos.

O seu percurso profissional é conhecido. Mudou-se para Lisboa, para estudar Arquitectura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Paralelamente, fazia teatro universitário.

Estreou-se profissionalmente, no mundo do espectáculo, no Grupo Fernando Pessoa, em 1960. Fez vários programas de rádio e televisão. Em 1967, estreou-se como encenador, na casa da Comédia, com a peça Noites Brancas de Dostoiévski. Apenas dois anos depois, ganhou o Prémio da Imprensa pela melhor encenação com peça Fando e Lis de Arrabal.

Nesse mesmo ano, terminou o curso de Arquitectura e ganhou uma bolsa da Gulbenkian, para estudar teatro em Londres. Ao mesmo tempo, teve um convite para trabalhar em Moçambique como arquitecto.

Fez o primeiro espectáculo em colónias portuguesas, com tema africano, escrito por um moçambicano e interpretado por actores africanos, na qual participou o pintor Malangatana. Dois anos depois, voltou a Portugal.

Contam-se inúmeras colaborações com companhias independentes e nacionais, ao longo da sua carreira de 50 anos, entre elas a Casa da Comédia, a Companhia Nacional de Teatro, o Teatro S. Luís, A Centelha, o Teatro Nacional D. Maria II, o Teatro Maria Matos, o Casino Estoril, A Barraca, o Teatro ABC, o Teatro Maria Vitória, a Seiva Trupe e o Teatro Experimental do Porto.

Na Marinha Grande, encenou diversos trabalhos para o Grupo de Teatro do Operário, foi autor de A Soprar Se Vai ao Longe e de uma adaptação musical de O Fidalgo Aprendiz. O encenador conhece a maior parte dos actores e considera que atingiram um bom nível interpretativo, tendo em conta que é um grupo amador.

Agora estão a encenar uma peça de Gogol, um escritor russo de origem ucraniana, do Séc. XIX, muito importante para o teatro moderno. A peça, de temática extremamente actual, passa-se numa pequena cidade da Rússia, mas podia ser em qualquer lado.

No fundo, o que se representa é uma sociedade corrupta, onde todos fazem favores em troca de presentes. É retratada, em forma caricaturada, como se pode constatar na caracterização exagerada e propositada das personagens, a arrogância e umbiguismo dos dirigentes e altas autoridades de uma sociedade, facilmente associados a outros de uma realidade bem conhecida.

Um dia, essa sociedade é abalada, com a notícia da chegada de um inspector do governo, mas também pode ser do FMI, diz o encenador. Contudo, esse desconhecido inspector não passa de um funcionário público que não gosta de trabalhar e que se vai aproveitar de todas as mesuras e subornos que lhe fazem, na esperança de que o “inspector” deixe passar todas as irregularidades das suas más gestões.

Quando Gogol escreveu a peça, alguns burocratas não gostaram de se ver retratados e Gogol teve de abandonar o país. Norberto Barroca, acredita que a função do teatro é, também, denunciar. Denunciar os males, para que a sociedade se reveja no palco e possa mudar, ou, pelo menos, rever atitutdes.

Apesar de já não ser a forma de entretenimento principal da população, com o aparecimento da televisão e da internet, o teatro continua vivo e a ser um veículo importante. Nas palavras do encenador: É um diálogo entre o espectador e o palco. É diferente ver uma peça na televisão do que no teatro, tanto para quem vê, como para quem faz. O teatro tem essa comunicação com o público. Nasceu da necessidade de comunicar e ainda mantém essa dinâmica e função. A função de comunicar e dialogar. O espectador está sentado, mas está a dialogar mentalmente. É um debate de ideias, de inteligências. É um encontro de emoções. Essa comunicação é que faz o acontecimento teatral. Ver uma peça na televisão não é a mesma coisa, porque falta o público, falta o contacto directo, falta a comunicação, faltam as descargas emocionais.

Há peças que não são aliciantes para um público não habituado a ver teatro. São muito herméticas, muito rebuscadas, não têm uma mensagem directa. Os meus espectáculos são muito directos. Qualquer pessoa percebe o que lá está. É bom que cada um tenha a sua interpretação, mas há pessoas que não estão habituadas, temos de facilitar mais, sem retirar a qualidade.

A adaptação da peça está um pouco forçada, dada a realidade nacional. Não é passada aqui, mas fazemos referência a alguns dados. No fim, terminamos com uma canção que é a denúncia, é um resumo da peça e mais direccionada à situação portuguesa. Afinal, o teatro também é política.




4 comentários:

folha seca disse...

Helena
A Marinha Grande (bairrismos à parte) deu à cultura grandes vultos. Norberto Barroca é um deles. Felizmente que apesar de até há pouco viver fora, nunca deixou de dar o seu contributo ao teatro que por aqui e se vai fazendo.
Jose Vareda tinha um sonho que contretizou, poucos antes de morrer. Criar um anfiteatro com condições de aí se fazer teatro. Penso que não chegou a ver a primeira peça. O seu nome ficou e bem, associado ao auditório com o seu nome.

Helena disse...

Deu e continua a dar! É uma terra terra onde proliferam artistas. Gosto de pensar que sempre será. Só é pena que não aproveitem o que de tão bom temos, para melhorar a cidade.
Não se esqueça de ver a peça! :)

folha seca disse...

Helena
Claro que vou ver a peça.
Não lhe disse mas durante mais de uma década fiz parte da direcção do S.O.M. Naturalmente que acompanhei as primeiras peças que se exibiram naquela sede (actual) visto que já noutros tempos o Operário tambem teve Teatro.
Cumprimentos

Helena disse...

Boa! :D