É muito raro deslocar-me ao médico. Quando vou, é porque é, supostamente, grave. Por isso lá vai ela para as zonas onde há mais probabilidades de contrair doenças manhosas e onde a simpatia das funcionárias está sempre no seu melhor. Já não basta as pessoas sentirem que estão com um pé para a cova, ainda tem de aturar gente que olha para elas, como se dissesse: "Já lá devias estar! Pelo menos, não me chateavas!" Eu sei... Eu sei que é muito mais giro estar num sítio onde os doentes não vos possam ver, à conversa com os seguranças, médicos e enfermeiros. Peço desculpa por agonizar de vez em quando e vos retirar desse animado convívio.
Durante a tortuosa espera, vê-se de tudo. Sobretudo, gente a fingir que está doente, para conseguir um papelinho para não ir trabalhar (isto é visível quando as pessoas se dirigem quase a correr para o consultório, mas saem de lá sempre coxas. Ainda bem que nunca apanhei um médico bruto desses!). Mas as pessoas que mais gosto de ver, são aquelas que falam muito alto, como se a espera das urgências fosse um café, e depois ficam a olhar em seu redor à espera de reacções ou de alguém que apoie a sua miserável condição de bimbo, ou bimba. Pensando bem, se calhar pensam que é um palco e que estão a desempenhar um papel, num espectáculo humorístico qualquer com o Bruno Nogueira.
Enfim, aquela voz metálica chama-me. Inicio a minha corrida de glória e faço uma prece desajeitada para que não me calhe aquele médico que me ia matando, quando era garota e tinha o apêndice a rebentar, e ele insistia em mandar-me para casa, porque era só uma dorzita de barriga.
Prece atendida, calha-me um médico que, pelo sorriso maroto, deve ter achado algum encanto no meu ar moribundo. "Então, o que é que se passa?", diz ele. E eu: "Ai, soutor. Tenho uma dor aqui." Apalpa daqui, apalpa dali, porque ser médico tem as suas vantagens. Vai-se a ver e era a desgraçada da coluna.
Fiquei logo nervosa (parecia adivinhar o meu destino) e comecei a verborreia. "Aqui de lado? Pensei que era o rim e que estava a morrer." O médico sorriu, explicou-me que é muito fácil ficarmos entrevados desta maneira, mesmo estando sempre ao computador, e tranquilizou-me: "Ainda não é desta." E depois matou-me: "Vai levar uma injecção." (cliquem aqui, para ver a reacção)
Não percebo qual é a cena das injecções. É muito raro deslocar-me a uma urgência e não levar uma injecção de cavalo (com o cavalo não me refiro à substância, que certamente será uma droga dura, mas ao tamanho da dita, i.e., gigantic). As outras pessoas levam comprimidos em forma de torpedos e que dificilmente passam pela garganta abaixo, outras levam xaropes com sabor a fruta podre, mas eu não, eu tenho de levar injecções. Será o tamanho do meu rabo, que impulsiona tais decisões? É que não parece haver uma ligação lógica, entre os casos em que me aguardou tal sina.Da última vez, há já alguns anos, deu-me chilique qualquer e eu não conseguia respirar. "Ai é? Então, toma lá uma injecção de cavalo, antes de fazeres os exames, só para tornamos a tua estadia mais agradável." De facto, não me chateei com o facto de ter passado o dia inteiro a fazer exames e de me terem levado para salas erradas, para me dizerem, no final do dia, para tentar não me enervar. Qual enervar, qual quê? Minutos depois de ter levado a injecção, fiz o check-in no Hotel Califórnia e por lá fiquei o dia todo.
E porque é que as injecções têm de ser no rabo? Não podem ser no braço, ou noutro sítio qualquer? O rabo tem alguma ligação privilegiada com o cérebro? A sério, não percebo.
Lá me encaminhei à sala das picas, o médico certificou-se de que eu não fugia, balbuciou qualquer coisa que parecia Russo ou Chinês e deixou-me entregue às mãos vis de um enfermeiro. Não bastava a pouca dignidade da posição de levar a injecção, ainda tinha de ser um gajo! Ainda tentei meter conversa, empatar com a minha verborreia. Afinal de contas, o jovem ia ver-me rabo, acho que no mínimo devíamos conhecer-nos. Mas ele não estava para lá virado e quando se virou, vi o tamanho da seringa e começou a fita.
Não pensem que foi um momento dramático, até porque eu não conseguia parar de rir, mesmo cheia de dores e com a iminência de espetarem uma coisa de metal de 10 cm no meu delicado traseiro. Quando estou nervosa, sou assim. O rapaz deve ter pensado que eu era louca. Ainda o estava a tentar empatar, quando senti algo gelado a invadir a minha nádega, ao que reagi com um guincho e um salto, dignos de uma miúda de 3 anos (eu sei, eu sei... shame on me! Mas ele podia ter avisado, caramba!).
Depois, veio o ataque da moda: "Isso que tem nas costas deve ter doído bem mais. Nessa altura, não teve medo da seringa." Então, eu passo a explicar, porque só quem não sabe do que fala é que diz estas barbaridades. Sim, as tatuagens são feitas com agulhas. Mas, ao contrário do que possam imaginar. A tinta não é injectada 10 cm abaixo da nossa pele. As tatuagens são feitas com pistolas, que têm uma agulha que mexe ininterruptamente, de forma a entranhar a tinta algures entre as camadas de pele. Ou seja, falamos em coisa de milímetros, ou menos. Além do que a agulha não se vê, ó tanso! "Ai, é?", diz ele. Ora toma lá! "Vá, esteja quieta..."
E assim, também eu saí do consultório a coxear e, possivelmente, mais vermelha do que um tomate, à medida que fui tomando consciência da figura triste que tinha acabado de fazer. Mas não há nada a fazer, quanto aos traumas de infância, que só eu e o meu rabo entendemos. Uma seringa será sempre um objecto maligno. Como diz o ditado: "Quem tem cu, tem medo." e eu tenho medo de seringas.
2 comentários:
Olha. Não és só tu a teres medo de seringas. Eu também tenho medo e a minha namorada tem mais medo ainda. Não tás só neste mundo cruel das seringas. :)))))))))
Já me sinto melhor! :D
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