Sábado de manhã, fazia eu a lide doméstica que mais detesto (porque o maridão foi chamado de urgência à empresa, senão fazia ele), quando os cães reagiram violentamente ao som da campainha. Como é normal, compensam em barulho e espalhafato, aquilo que têm em palermice.
Desloquei-me vagarosamente até à porta, pedindo para que não fossem aqueles senhores, Testemunhas de Jeová, a quem eu espetei uma seca. Sim, sou doida. Tenho uns dias piores do que outros. Uns dias, as pessoas dizem coisas idiotas e passam-me ao lado. Noutros dias, tenho de as comentar. Anyway, eles acharam que eu precisava de salvação e de uma bíblia e ficaram de voltar. Com sorte, não estarei em casa nesse dia. Eu até gostava de, um dia, ler a bíblia. Why not? Mas ainda não. Além disso temo que me venham, outra vez, com as teorias do: "Então, acha que Deus nos deu estes sentidos só para comer, cheirar, ouvir (...)?" e eu lhes pergunte se acham que Deus nos deu uns órgãos genitais cheios de sensores malucos só para nos reproduzirmos. Não... Não seria capaz. Vai daí... nunca se sabe.Claro que o senhor não se contentou em dizer o quanto eu sou parecida com o meu pai, nem em receber o valor do livro e ir à vida dele. Não, teve de me massacrar um bocadinho. Porque sou tradutora e porque preciso de um dicionário, apesar de lhe ter dito que tenho vários, em formato de papel e CD, além dos que consulto online. "Ah, mas esses online não lhe dizem o que é um canto!", disse o sabichão. "Ah, não?", respondi eu
. Então, lá me perguntou o que é um canto, com um sorriso malicioso como se tivesse a certeza de que eu iria cair na armadilha, e ele teria o seu momento de glória e facturar uma venda. Wrong!
. Então, lá me perguntou o que é um canto, com um sorriso malicioso como se tivesse a certeza de que eu iria cair na armadilha, e ele teria o seu momento de glória e facturar uma venda. Wrong!
Eu sabia que ele queria que eu dissesse que era uma esquina. Assim o fiz e quando ele começou a afiar as unhas para soltar a ladainha, eu retribuí o sorriso malicioso e terminei a definição. Era óbvio que ele queria fazer um brilharete com as divisões dos poemas dos Lusíadas, mas o meu conhecimento não o travou. O homem gaguejou um pouco, decidiu fingir que não tinha ouvido e trauteou a cantilena toda, feliz da vida.Fiz-lhe a vontade, ouvi, mas eu não sou conhecida pela virtude da paciência e o sol estava a queimar. Por isso tentei despachá-lo, dizendo que não iria fazer um investimento naquele dicionário por causa do acordo ortográfico. E agora vem o auge da minha história. O senhor sabichão olhou para mim de lado, gaguejou mais um bocadito e saiu-se com esta: "À conta dessa do acordo, vou ficar sem metade do meu subsídio de férias!"
Aproveitei a mão, que me protegia do sol, para a levar à boca, num instinto de me controlar. "Não te rias na cara do homem! Não te rias na cara do homem!", pensei. Acabei por dizer num tom mais seco, para o despachar, que não estava mesmo interessada. Agradeci a visita, despedi-me e apressei-me para dentro de casa, para me deitar no chão e rebolar de tanto rir!Será que o senhor, que perdeu tempo a decorar que um canto "é o canto do frigorífico que não se consegue limpar" (whatever... se isso o faz feliz), não podia perder um bocadinho de tempo para ler o catálogo, que anda sempre com ele, para não dizer estas barbaridades?
Imagens descaradamente roubadas da net
2 comentários:
Julgas tu que essas coisas só acontecem contigo. Também já fui sócio do Círculo de Leitores, ou melhor, a minha mãe é que se fez sócia quando eu tinha apenas uns 13 ou 14 anos. O que é certo é que foi das coisas mais acertadas que ela fez na vida. Eu explico o porquê. Então é assim. Com apenas 17 anos eu já tinha lido as obras completas do Eça, do Camilo, do Aquilino (este não foi nada fácil de "digerir") e do Júlio Dinis. Aos 17 anos eu era um poço de sabedoria no que se refere ao grandes Clássicos da Literatura Portuguesa. É claro que o assistente de vendas, o qual morava na mesma rua, esfregava sempre as mãos de contente cada vez que batia à porta da minha casa. Ele sabia que eu adorava ler livros às toneladas e isso era música para os seus ouvidos. Quando eu fiz os meus 18 anos fiz-me sócio do Círculo de Leitores, libertando assim a minha mãe desse encargo. Com 30 anos achei que era a altura de desistir. O assistente ainda era o mesmo de sempre. Nem queiras saber a carga de trabalhos que tive para fazer entender ao senhor que eu já não queria mais pertencer ao Círculo. No fim o homenzinho deixou transparecer um ar indisfarçável de enorme desalento. Ele nem queria acreditar que perdera o melhor freguês. Nunca mais falou comigo......
--------------------------------
Epá. Esta minha narrativa daria um excelente post lá no meu estaminé. lolololololol. ;)
Howdy Stranger!
Também conheço o Círculo de Leitores desde pequenina, por causa do meu pai. Mas... eu não lia os clássicos. Ao invés enchia a cabeça de cenários mirabolantes dos policiais que ele lia. Deve ser por isso que tenho uma imaginação tão fértil.
Mais tarde, também eu me fiz sócia e não penso em desfazer-me dessa sociedade tão cedo. É certo que a maior parte dos livros que eles têm, também se encontram noutras livrarias a preços muito mais em conta, mas verdade seja dita que as encadernações são bem diferentes.
Além disso acho que as colecções deles valem muito a pena. Sejam de clássicos, dicionários, enciclopédias, ou até livros de culinária, como é o caso dos Sabores do Mundo, os últimos que coleccionei. :)
Compreendo o desalento desse assistente, mas não era motivo para deixar de falar contigo.
Acho que fizeste mal em desistir (não, não trabalho para eles). Mas sabes que não és obrigado a encomendar sempre que vem uma revista. Eu esqueço-me de tal maneira que, agora quando me telefonaram para fazer a encomenda, disseram que já não fazia uma encomenda há um ano. Como prémio tive um desconto supimpa. :-p
Então, toca de reproduzir o assunto no teu estaminé! :D
Enviar um comentário