05/07/2011

Coisas que só a mim acontecem

Sábado de manhã, fazia eu a lide doméstica que mais detesto (porque o maridão foi chamado de urgência à empresa, senão fazia ele), quando os cães reagiram violentamente ao som da campainha. Como é normal, compensam em barulho e espalhafato, aquilo que têm em palermice.

Desloquei-me vagarosamente até à porta, pedindo para que não fossem aqueles senhores, Testemunhas de Jeová, a quem eu espetei uma seca. Sim, sou doida. Tenho uns dias piores do que outros. Uns dias, as pessoas dizem coisas idiotas e passam-me ao lado. Noutros dias, tenho de as comentar. Anyway, eles acharam que eu precisava de salvação e de uma bíblia e ficaram de voltar. Com sorte, não estarei em casa nesse dia. Eu até gostava de, um dia, ler a bíblia. Why not? Mas ainda não. Além disso temo que me venham, outra vez, com as teorias do: "Então, acha que Deus nos deu estes sentidos só para comer, cheirar, ouvir (...)?" e eu lhes pergunte se acham que Deus nos deu uns órgãos genitais cheios de sensores malucos só para nos reproduzirmos. Não... Não seria capaz. Vai daí... nunca se sabe.
Preces atendidas, não eram os maluquinhos do folheto do apocalipse. Se bem que este tinha uma pinta bem pior. Era o novo assistente de vendas do Círculo de Leitores, que me vinha fazer a entrega do meu último pedido, Vento Suão.
Claro que o senhor não se contentou em dizer o quanto eu sou parecida com o meu pai, nem em receber o valor do livro e ir à vida dele. Não, teve de me massacrar um bocadinho. Porque sou tradutora e porque preciso de um dicionário, apesar de lhe ter dito que tenho vários, em formato de papel e CD, além dos que consulto online. "Ah, mas esses online não lhe dizem o que é um canto!", disse o sabichão. "Ah, não?", respondi eu. Então, lá me perguntou o que é um canto, com um sorriso malicioso como se tivesse a certeza de que eu iria cair na armadilha, e ele teria o seu momento de glória e facturar uma venda. Wrong!
Eu sabia que ele queria que eu dissesse que era uma esquina. Assim o fiz e quando ele começou a afiar as unhas para soltar a ladainha, eu retribuí o sorriso malicioso e terminei a definição. Era óbvio que ele queria fazer um brilharete com as divisões dos poemas dos Lusíadas, mas o meu conhecimento não o travou. O homem gaguejou um pouco, decidiu fingir que não tinha ouvido e trauteou a cantilena toda, feliz da vida.
Fiz-lhe a vontade, ouvi, mas eu não sou conhecida pela virtude da paciência e o sol estava a queimar. Por isso tentei despachá-lo, dizendo que não iria fazer um investimento naquele dicionário por causa do acordo ortográfico. E agora vem o auge da minha história. O senhor sabichão olhou para mim de lado, gaguejou mais um bocadito e saiu-se com esta: "À conta dessa do acordo, vou ficar sem metade do meu subsídio de férias!"
Aproveitei a mão, que me protegia do sol, para a levar à boca, num instinto de me controlar. "Não te rias na cara do homem! Não te rias na cara do homem!", pensei. Acabei por dizer num tom mais seco, para o despachar, que não estava mesmo interessada. Agradeci a visita, despedi-me e apressei-me para dentro de casa, para me deitar no chão e rebolar de tanto rir!
Será que o senhor, que perdeu tempo a decorar que um canto "é o canto do frigorífico que não se consegue limpar" (whatever... se isso o faz feliz), não podia perder um bocadinho de tempo para ler o catálogo, que anda sempre com ele, para não dizer estas barbaridades?
Imagens descaradamente roubadas da net

2 comentários:

L.O.L. disse...

Julgas tu que essas coisas só acontecem contigo. Também já fui sócio do Círculo de Leitores, ou melhor, a minha mãe é que se fez sócia quando eu tinha apenas uns 13 ou 14 anos. O que é certo é que foi das coisas mais acertadas que ela fez na vida. Eu explico o porquê. Então é assim. Com apenas 17 anos eu já tinha lido as obras completas do Eça, do Camilo, do Aquilino (este não foi nada fácil de "digerir") e do Júlio Dinis. Aos 17 anos eu era um poço de sabedoria no que se refere ao grandes Clássicos da Literatura Portuguesa. É claro que o assistente de vendas, o qual morava na mesma rua, esfregava sempre as mãos de contente cada vez que batia à porta da minha casa. Ele sabia que eu adorava ler livros às toneladas e isso era música para os seus ouvidos. Quando eu fiz os meus 18 anos fiz-me sócio do Círculo de Leitores, libertando assim a minha mãe desse encargo. Com 30 anos achei que era a altura de desistir. O assistente ainda era o mesmo de sempre. Nem queiras saber a carga de trabalhos que tive para fazer entender ao senhor que eu já não queria mais pertencer ao Círculo. No fim o homenzinho deixou transparecer um ar indisfarçável de enorme desalento. Ele nem queria acreditar que perdera o melhor freguês. Nunca mais falou comigo......

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Epá. Esta minha narrativa daria um excelente post lá no meu estaminé. lolololololol. ;)

Helena disse...

Howdy Stranger!
Também conheço o Círculo de Leitores desde pequenina, por causa do meu pai. Mas... eu não lia os clássicos. Ao invés enchia a cabeça de cenários mirabolantes dos policiais que ele lia. Deve ser por isso que tenho uma imaginação tão fértil.
Mais tarde, também eu me fiz sócia e não penso em desfazer-me dessa sociedade tão cedo. É certo que a maior parte dos livros que eles têm, também se encontram noutras livrarias a preços muito mais em conta, mas verdade seja dita que as encadernações são bem diferentes.
Além disso acho que as colecções deles valem muito a pena. Sejam de clássicos, dicionários, enciclopédias, ou até livros de culinária, como é o caso dos Sabores do Mundo, os últimos que coleccionei. :)
Compreendo o desalento desse assistente, mas não era motivo para deixar de falar contigo.
Acho que fizeste mal em desistir (não, não trabalho para eles). Mas sabes que não és obrigado a encomendar sempre que vem uma revista. Eu esqueço-me de tal maneira que, agora quando me telefonaram para fazer a encomenda, disseram que já não fazia uma encomenda há um ano. Como prémio tive um desconto supimpa. :-p
Então, toca de reproduzir o assunto no teu estaminé! :D