22/07/2011

A praia da minha vida

Fiz-me convidada ao desafio do Carlos, para escrever qualquer coisa sobre a praia da minha vida. A bem dizer, não existe uma praia da minha vida, existem várias. É o que dá viver nesta costa maravilhosa. Assim, podia escrever sobre a praia a que os meus pais me levavam, quando era pequena, de denso areal e mar desenvolto, a Praia Velha. Sobre a praia em que aprendi a nadar, a mais longínqua Foz do Arelho. Sobre a praia em que a Tucha ficava a ladrar ininterruptamente, enquanto eu estava dentro de água (que a sorte a livrasse de molhar as patas!), as Paredes. Sobre a praia que deixei de frequentar durante o dia depois de uma onda me ter libertado da parte de cima do biquíni. Praia essa, também, na qual estive mais vezes à noite do que de dia. Não se ponham com ideias, os bares são mesmo ali. Nada mais natural do que umas cervejas a mais fazerem-nos querer molhar os pés, ou mostrar aos amigos como se faz o pino maluco do Ioga. Estou a falar de S. Pedro de Moel, claro. Já agora, aproveito para pedir às pessoas para deixarem de escrever "Muel", por favor. Também podia escrever sobre a praia dos namorados surfistas, a Nazaré, “Ah mooor, tás por cã?” (giros, giros, giros, giros, giros…). Sobre a praia do topless, a Concha, que desapareceu este ano. Também pode ser a praia da sauna, porque não sopra lá uma brisa sequer. Sobre a praia dos banhos pós-expediente, que tem o mar mais apetecível da zona (quase nos esquecemos de que a temperatura da água gela os ossos), a Polvoeira. Ou sobre a praia onde os cães gostam de passear e arreliar os pescadores e onde trios gay se divertem, escondidos nas dunas imensas, as Pedras Negras.
Se de todas estas praias, tivesse de escolher uma para definir como praia da minha vida, seria muito difícil. De uma maneira, ou de outra, todas elas me marcaram. Ainda assim, há uma mais especial. Talvez por ter sido a primeira praia onde fui. Talvez por ter sido ali que vi o mar, pela primeira vez, o que poderá explicar o meu fascínio por ele, medo e respeito. Talvez seja pelos bons momentos que passei ali, pelas amizades que fiz, pelas conchinhas que apanhei, pelos bichinhos estranhos que vi (juro que uma vez vi lá uma coisa igual a um escorpião, só que era da cor da areia). Mas, apesar de todas estas coisas boas, o que mais me marcou foi o impacto visual.
Chegar à Praia Velha na década de 80, era a mesma coisa que entrar numa favela à beira mar. Fazer aquele caminho ziguezagueado, por entre árvores gigantes e bermas pejadas de pessoas com os seus farnéis de domingo, que deitavam o lixo para o chão e lavavam a louça na ribeira. Chegar à praia, onde se avistavam, de um lado, construções precárias amontoadas, naquilo que viria a descobrir mais tarde serem dunas. Do outro lado, acampamentos grotescos de pessoas que achavam que toda a gente deveria ter direito a um bocado de praia para si.
Hoje, quando penso nisso e passo naqueles sítios, não consigo perceber como aquele espaço conseguia albergar tanta gente. Na altura, lembro-me de sentir alguma estranheza naquilo tudo, talvez por ouvir o meu pai resmungar sempre que passava ali “Estragam tudo! Estragam tudo!”. Ao mesmo tempo sentia algum fascínio. Mal ou bem, aquela gente vivia na praia. Isso era invejável. Claro que este encantamento também se devia ao facto de achar aquela viagem até à praia, no Datsun 100 A do meu velho, com estofos em qualquer coisa a imitar pele, que aquecia com o sol e queimava a pele, uma verdadeira tortura, apesar de se fazer nuns meros 10 ou 15 minutos. Ou seja, o deslumbre da chegada à praia triplicava perante a ansiedade.
Um dia, alguém decidiu que aquilo não podia ser assim. Mandaram demolir as casas e retirar os acampamentos. Durante muito tempo, deixámos de frequentar essa praia. Além do reboliço divertido e poluidor ter desaparecido, a imagem daquela praia gigante e movimentada era triste e desoladora. Além de ser perigoso frequentá-la com todos os destroços deixados para trás e revelados os níveis de poluição da ribeira, que desagua na praia.
Anos passaram, até ter voltado a sentir o chamamento da Praia Velha. Não será uma praia boa, para gosta de estar de papo para o ar. É muito ventosa e é impossível tomar banho naquele mar. Mas é certo que naquele sítio não encontrarão um amontoado de gente e se passarem lá em Setembro já deverá estar deserta, como eu gosto.
Gosto de chegar lá e ver a imensidão da areia, as dunas que recuperaram a forma, a flora que avançou, como que lutando com o mar pela conquista da praia. Batalha impossível de travar, já que o mar todos os anos ganha terreno.
Gosto de sentir o vento na cara, com aqueles pingos de maresia pronunciados, como um aviso do mar “Não te aproximes muito!”, mas como eu sou desafiadora, aproximo. Adoro ver a rebentação selvagem das ondas, naquela praia. Faz sentir-me pequena. Talvez seja porque me deixo ficar imóvel, enquanto as ondas vão e vêm, arrastando a areia debaixo dos meus pés, afundando-me cada vez mais nos seus domínios, como se dissessem: “Agora, és nossa.” Adoro sentir a areia nos meus pés, faz-me cócegas. Em dias mais sensíveis, faço figuras idiotas. Noutros, deixo a areia desempenhar o seu papel, nesta comunhão com a natureza.
Adoro a paz que esta praia me traz. Às vezes, parece querer dizer-nos que nunca se deixará conquistar pelo Homem. É uma praia onde posso esquecer tudo e render-me aos mais puros instintos. Abrir os braços, sentir o vento, respirar profundamente, sentir o calor da areia, ou o gelo da água, e ser, simplesmente, mais um pequeno grão de areia no meio da vastidão que nos envolve.



Todas as fotografias são da Praia Velha, anteriormente publicadas neste post.

8 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Antes de mais, obrigado pela participação, Helena. É muito bonita a praia Velha, mas não conheço a praia das Polvoeiras. Fica aí perto?
O texto entrou em linha de espera e farei o link na próxima quarta-feira.
Ah, é verdade!Apesar de conhecer muitas praias lá fora ( quem teve vida de andarilho como eu sujeita-se...) há praias maravilhosas em Portugal. A grande diferença é a temperatura da água e o vento que tiram o apetite de tomar uma banhoca. Pelo menos a mim...
Mais uma vez obrigado e bom fim de semana.

folha seca disse...

Helena
Apesar de comentar pouco, não me escapa um dos seus posts. Isto de ser "Santo da casa" tem os seus inconvenientes.
Gostei e revi tudo o que descreveu.
Há aspectos que talvez num outro post (seu ou meu) possa descrever melhor aquele amontoado de "barracas" que durante um período de tempo tornaram o "Canto do Ribeiro" as "pedras Negras" a Polvoeira e outras, praias quase privadas. É um estória que merece ser contada e entendida, até porque foi um fenómeno que se estendeu práticamente por toda a costa Portuguesa.
Gostei da descrição apesar de algumas coisas que a gente sabe sempre terem existido, mas que talvez fruto da liberdade (e porque não) se tornaram mais visíveis. Só me chateia ser confundido por vezes, quando por exemplo paro num dos meus cantos preferidos, por ex. a parte norte das Pedras Negras. Mas quem não deve não teme e quem não gosta não come e rejeita de imediato o prato.
Cumprimentos cara conterrânea

Helena disse...

Eu é que agradeço pela oportunidade!
A praia da Polvoeira fica pertinho, no sentido de S. Pedro de Moel, seguindo sempre pela estrada atlântica. É mais ou menos por esta ordem: Praia Velha, Praia da Concha, S. Pedro de Moel, Água de Madeiros (uns dizem que é a praia da pedra lisa), Pedra do Ouro e, finalmente, Polvoeira.
Bom fim-de-semana!

Helena disse...

Pois é uma história que merece ser contada, mas deixo-lhe a tarefa a si. Porque na memória só ficaram escassas imagens. Tentei procurar fotografias desse tempo, mas não encontrei. Por acaso não tem nenhuma? Era supimpa! :)
Bem, eu não corro o risco de ser confundida. eheheehheh Nem costumo praiar nessas zonas, que são muito ventosas e eu sou friorenta. Os meus caninos é que gostam muito de lá ir.

Cumprimentos e bom fim-de-semana!

Manuela disse...

Querida Helena, gostei de ler este teu texto sobre a praia da tua vida e de como ela era e como se tornou. Achei engraçado o motivo porque a elegeste :)

Helena disse...

Esta praia é a prova de que a força da natureza é muito superior ao homem. Não tivessem demolido as construções ilegais e deixado as dunas recuperar a sua forma, o mar certamente já as teria destruído.
Estas fotografias foram tiradas num dia de maré vaza. A rebentação é digna de se ver em plena preia-mar, sobretudo, de Inverno.

Pedro Coimbra disse...

Conheço São Pedro de Moel e a Nazaré.
E passei a conhecer, e a seguir, o seu blogue.

Helena disse...

Obrigada pela visita, Pedro.
Convido-o a conhecer o resto da costa da zona. Certamente, não se irá arrepender.