Confesso que, por vezes, deposito demasiada esperança na raça humana. Há coisas que penso que nunca irão acontecer, mesmo que no fundo saiba que isto pode ser interpretado como a síndroma de quem viu muitos filmes da Cinderela, ou de quem acredita no Pai Natal.
São coisas que a minha cabecinha (ainda muito presa à imaturidade dos seus vintes que já foram) acredita que são exclusivas a filmes de suspense de má qualidade, ou daqueles que estão na moda sobre carros, porrada, sexo, música horrorosa electrónica e vira o disco e toca o mesmo, ou até mesmo um daqueles programas cómicos que consistem em pregar partidas às pessoas que passam na rua e que, normalmente, acabam com um ataque cardíaco de alguém, ou com um tiro nos cornos (ai que agora parecia aquele "apartidário" a falar...).
Também não acredito que o ser humano seja um anjinho, vá lá... Eu sei que toda a gente tem maus dias e que isso se pode reflectir na nossa simpatia. Por isso, se não me cumprimentam, se não me apaparicam, como qualquer cliente deve ser apaparicado, se não sabem agradecer, se vão com pressa e apitam antes de cair o verde, se não sabem usar os piscas, se têm uma vontade incontrolável de deixar o seu ADN no passeio ou nas esquinas, é pá... eu não gosto. Posso resmungar cá para mim, mas continuo o meu dia, feliz por não ter cedido à má disposição de outrem.
Agora, há aquelas coisas que me recusava a acreditar que alguém tivesse o atrevimento e a safadeza suficientes para as concretizar. E de que falo eu? Do roubo descarado de um lugar de estacionamento.
Estava eu a fazer pisca para estacionar, a aguardar que a viatura, que vinha em sentido contrário, passasse, para proceder à manobra, quando o "cavalheiro" que conduzia a dita se aproxima. Ele olha para o lugar e para mim e decide estacionar. Façanha que lhe valeu uma bela buzinadela, ao que ele responde com um encolher de ombros. Ora não sendo francês (o único povo que pode manifestar o desdém com os ombros, sem gerar ondas de ódio), aquele sinal de desprezo do tipo: "Oh, coitadinha da mulherzinha... O que vais fazer agora? Vais bater-me, é? Vai-te lá embora para a cozinha!" (sim, eu tenho uma capacidade prodigiosa para interpretar o significado dos gestos), fez vir ao de cima o meu melhor Português (o Millôr Fernandes tem um belo texto que explica o uso dessas palavras), complementado com uns gestos tipicamente portugueses.
Na altura, cheguei até a desejar ter um jipe daqueles cheios de barras à frente, para remodelar a lateral ao carro, até ter sítio para estacionar. Desejei até não ter deixado o taekwondo, para o deixar estendido no chão, ou simplesmente pregar-lhe uma rasteira, sei lá. Mas acabei por me ir embora e arranjar estacionamento mais perto do destino.
Várias pessoas gozaram comigo, quando lhes contei (talvez "vociferei" fosse melhor) o episódio. Várias disseram que não saíam de lá, enquanto ele não tirasse o carro, que iam falar com ele, que davam uso ao taco que têm no carro (A sério? Um taco? Ok...), blá, blá, blá, blá. O facto é que todas essas reacções poderiam gerar uma situação de confronto, da qual eu só poderia perder e, sinceramente, não valia a pena. A reacção de o insultar da melhor forma que pude, com o pé estrategicamente no acelerador, caso fosse necessário bater a retirada, ainda me parece a melhor opção. E vocês? O que fariam?