Leu-se muita coisa sobre as asneiradas da entrevista da Sábado. Por incrível que pareça, até paninhos quentes puseram nos meninos, porque "oh, coitadinhos" não são obrigados a saber tudo. Confesso que isto me causou algum formigueiro na ponta dos dedos e não foi pela má circulação sanguínea.
Antes de mais, tenho de concordar com o facto de a entrevista estar muito mal escrita (mais uma prova de que a qualidade do ensino está a decair a passos largos). Pode até ser tendenciosa, porque não mostrou todos os entrevistados, e dizem os esperançosos que não mostraram os outros 90 entrevistados porque acertaram nas perguntas (yeah, right). Usar isto para chamar ressabiado ao jornalista e dizer que não deve ter estudado, já me parece uma grande falta de educação.
Pois é mesmo de educação de que estamos a falar. Há quem defenda esta tão massacrada geração, que tudo tem, porque no fundo, no fundo eles até sabem bué de cenas. Não sabiam era aquelas coisas, porque as perguntas foram mal feitas, porque os apanharam desprevenidos, é pá... e porque não era a área deles, não é?
A questão é que não estamos a falar de pessoas com o ensino secundário, estamos a falar de estudantes universitários, caraças! Não me parece mal exigir bem mais deles, tal como exigiram de mim e de tantos outros.
Ainda li uma idiotice sobre as elites e sobre a democratização no ensino superior. WTF? A verdadeira democratização do ensino deu-se na geração do meu irmão (aqueles que mostraram os rabos por depilar, na luta contra a PGA e mais tarde chegaram até a conseguir uma suspensão provisória das propinas). Eu ainda entrei para o ensino superior a pagar 60 contos (300€), valor que resvalou até aos mil euros (200 contos) em apenas 10 anos. Como podem achar que o ensino superior é democrático? Estes valores permitem o acesso ao ensino a todos os jovens? Muito pelo contrário, assistimos à crescente retoma do elitismo no ensino. E irrita-me ver oportunidades desperdiçadas por aqueles túneis de vento personificados.
Coloca-se ainda outra controvérsia: estamos a falar de jovens de 18 anos e eles não têm de saber tudo, sobretudo se não foi dado na escola. Ora aqui está o busílis da questão!
Não têm? Pois claro que não têm. E isto faz-me lembrar de uma grande professora minha que, um dia, numa aula do primeiro ano, nos disse que caminhávamos para uma sintetização do saber, para as engenharias do parafuso, onde o conhecimento de cada área é específico e isolado de todas as outras áreas. Isso permite-nos ser craques na nossa área e completamente ignorantes sobre tudo o resto que se passa à nossa volta (aproveito para fazer um profundo agradecimento a todos os meus professores do ensino superior, que nunca me facilitaram a vida e me fizeram puxar pelos neurónios).
Muitos destes jovens entrevistados são alunos de Psicologia. No meu tempo, a média para entrar em Psicologia era de 18 valores. Não sei se isso será diferente, agora. Mas um miúdo, que tenha uma média de 18, tem de ser inteligente. Devia saber um pouco além daquilo que vem nos livros. Saber interpretar o mundo com o seu próprio juízo.
Já no meu tempo havia garotos destes. Brilhantes nas aulas, toscos na vida. E não falo da esperteza para agir socialmente. Falo de saber expor, saber pôr em prática e saber relacionar todas as matérias que aprendemos nas aulas. Cheguei a conhecer pessoas com médias brilhantes, mas com quem era impossível ter uma conversa, porque eram, pura e simplesmente, burras.
O que era uma excepção e que eu julgava ser um acaso de uma lacuna qualquer cerebral, afinal tornou-se caso corrente, na actualidade. Os jovens são todos assim. São incapazes de procurar conhecimento fora das aulas. São incapazes de raciocinar, relacionar. E são quase incapazes de se interessar. Isto não nos deveria pôr a pensar no rumo do nosso sistema educativo e numa possível mudança do papel dos educadores, tanto professores, como pais?
Mais do que demonstrar a ignorância dos entrevistados, esta reportagem serviu para mostrar como esta geração (ou a maioria, porque é claro que existem sempre mentes pensantes) se encontra completamente desinteressada e alienada da realidade. Não é por não saberem quem pintou o tecto da Capela Sistina, mas porque a resposta, para muitas daquelas perguntas, passa diariamente nas notícias.
Se isto não é importante e grave, e eu estou a ser ressabiada, e a fazer uma tempestade num copo de água, e estou a ser ignorante porque não perco uma oportunidade para apontar o dedo às fraquezas dos outros, bem... Então, já não sei o que dizer.