Não imaginam a quantidade de vezes que ensaiei este post. Pareço uma miúda de 16 anos que hesita ao contar aos pais que, naquela noite em que chegou mais tarde, ela e o namorado se entusiasmaram e a camisinha não resistiu às emoções, e agora têm todos um grande problema para resolver.
Se ainda não perceberam o objectivo do post, eu dou mais uma dica: o tema da gravidez indesejada do parágrafo anterior não foi escolhido aleatoriamente.
Acontece que eu não sou uma fanática pró-vida, na situação que referi anteriormente, ou tantas outras, mas na minha situação em que tenho casa (aliás, tem o banco, durante muitos e longos anos), trabalho e tenho um marido que adora crianças, os meus argumentos perdem o seu vigor. Bem gostaria de ter tido coragem de me armar em Cristina Yang, mas isso faria tanto sentido como eu ser mãe. Já que se tratou de um empate, deixei o pénis dar mais uma opinadela sobre o assunto, já que é a única coisa que sabe e pode fazer, e bem... Terei de me aguentar à bomboca.
Passei os últimos 4 meses chateada, frustrada, revoltada com tudo e com todos. Parece incrível que tanta gente com aptidão para a parentalidade tenha de passar anos a tentar engravidar, ou tenha mesmo de recorrer à adopção e eu tenha engravidado por causa de um acidentezinho estúpido. Devo ter sido abençoada pela deusa da fertilidade, quando estive a olhar para a estátua dela, no Museu do Vaticano.
Quem me conhece e ainda não sabia, deve estar a levar as mãos à cabeça, ou gozar comigo, como todos os que já sabem fizeram. E secretamente pensam: “Meu Deus, o que vai sair dali?”
A preocupação deles não é vã. Toda a gente sabe que eu prefiro cães. Não cheiram a azedo, não fazem barulhos, nem birras irritantes. Podem ficar em casa dos “avós”, quando vou de viagem. Não tenho de mudar toda a minha vida em função deles. Nunca terão crises de adolescência. Podem ser esterilizados. Sei lá... Podia continuar a escrever sobre as vantagens de ter cães, mas a esta hora já me devem estar a chamar nomes.
Não é que não goste de crianças. Gosto de algumas, as bem-educadas. Sei que as mal-educadas não têm culpa. A culpa é dos pais, também mal-educados, mas eu não tenho de gostar nem de uns, nem de outros. E o facto de não achar que todos os bebés são uns anjinhos lindos, não faz de mim um monstro insensível. Penso que por não sentir aquele apelo maternal, consigo observar as coisas racionalmente. Os bebés são todos iguais e feiocos. Os brancos, então, estão em grande desvantagem, com aqueles tons roxos, crostas e pêlos. Os que se diferem por apresentarem traços fortes do pai, da mãe, ou dos avós são ainda mais feios. Parecem umas miniaturas estranhas, com cara de adulto em corpo molengo e minorca.
Mas vá... Tenho andado a tentar mentalizar-me de que aquele milagre de dar à luz (como se fosse só ligar um interruptor) me vai alterar de alguma forma e eu vou passar a achar tudo lindo. Por outro lado, não quero mudar. Preocupa-me pensar que me vou tornar numa dessas hipócritas que anda aí a dizer que é tudo lindo, como se se esquecessem de tudo o que confessam nos momentos mais negros. Preocupa-me pensar que me poderei tornar numa daquelas pessoas que parecem ter esquecido tudo o que foram, tudo o que fizeram e estão determinadas em fazer dos filhos uma ponte para ultrapassar as suas frustrações. Tenho receio de que as preocupações que implicam ter uma parte de mim aí à solta no mundo me arranquem o sorriso do rosto. E o meu sorriso é tudo. Será que vou ser feliz com esta opção?
É nisto que tenho matutado, dia após dia. É por isso que sempre que tentava escrever algo sobre isto, desistia. As perguntas são constantes. O medo de tudo aquilo que terei de passar é avassalador. E, no entanto, passa tudo tão depressa que nem tenho tempo de pensar.
Já só faltam 5 meses, ou menos, para me passar a dedicar, para o resto da vida, a outra pessoa. Terei de repensar tudo, fazer novos planos, traçar novos objectivos, tudo em função deste ser que só me faz doer a barriga. E ainda agora é agora...
Fiz asneira. Fiz uma escolha. Terei de viver com ela. Só espero encontrar um pouco da alegria de que tanto falam.
17 comentários:
Helena
Que tudo corra bem e que venha aí mais um(a) Marinhense com muita saude.
É assim, se não fossem estes "acidentes" eramos muitos menos e provavelmente alguns de nós não existiamos.
Abraço
Rodrigo
Força aí, Helena. Compreendo (e partilho até certo ponto) o teu ponto de vista, mas hajam forças, passarás a ter ainda mais sobre o que escrever, comentar e fotografar. Será uma (bela) viagem do caralhinho! Promete só que não vais ficar tão embebida no espírito, que acabes por transformar este canto num blog sobre bebé, como muita (merdinha chata) que por aí anda, eheheh.
Muitos parabéns :)
Querida Helena, estive aqui a ler e a reler o teu texto e não sei o que hei-de escrever!
Por um lado sinto-te angustiada e descontente com a tua nova situação,e compreendo-te perfeitamente, pois também eu nunca tive filhos por opção própria. E se me acontecesse uma gravidez indesejada, reagiria como tu, provavelmente.
Por outro lado, recordo o que todas as mães dizem: quando sentem o seu bebé, no colo a primeira vez, tudo se transforma e o apelo maternal surge do nada e é uma alegria danada.
Aguardo, tal como tu, os teus novos sentires.
Um grande abraço.
Bom, sabes o que penso sobre este tema, certamente (caso não saibas, penso o mesmo que tu, basicamente e hurra Christina Yang!).
Em todo o caso, podes usar a oportunidade to prove me and you wrong e ter uma criança daquelas de quem pessoas como nós dizem «ok, se fossem todos assim civilizadinhos, ainda ia».
Tipo, quão mau pode ser? Nunca terás um fedelho como a que veio no Expresso o caminho todo até Fátima a ganir «ó pai, liga o competadoreeee preu ver o filmeeee!», certo? ;)
Now, keep calm and enjoy the eating binge!
Olá, Helena! Lembras-te de , no último ano da nossa licenciatura, eu ter ficado grávida? pois olha, só aceitei essa gravidez quando já estava no 6º mês. Não queria ter filhos, era como tu..como é que tamanho acidente me teria acontecido..senti até vergonha de estar grávida, afinal de contas..era uma estudante (com 35 anos, mas estudante). Foi muito desagradável. Aquela coisa a crescer e eu a nem querer saber do assunto. Lá para o 6º mês habituei-me à ideia..que remédio!!Roupinha?? devem estar malucos..só para o fim é que me lembrei de a comprar!! Eu não estava muito longe dessa Cristina yang..até ao dia em que nasceu o pequerrucho..e aí..deu o clic..eu que também achava os bebés horrorosos..e não é que o meu nasceu a coisinha mais linda ao cimo da terra?? e era meu..e amo-o (os) mais do que tudo e daria/darei a vida por eles em qualquer altura se isso for necessário..coragem, Helena!! Um grande abraço. Claudia
Obrigada, Rodrigo. É um facto, eu não existiria. :)
Obrigada, Ricjo. Pensamento positivo! Prometo que este canto nunca terá um fundo de fraldas e chupetas. :)
Manuela, vamos lá ver... Espero que essa alegria chegue. bjs
Pois, Rachelet. Tenho de abraçar a causa, dar o meu melhor e tentar ser feliz com isso. :)
Cláudia, para ser sincera não me recordo. :) Estava muito ausente por causa do trabalho.
Espero que, tal como tu, também eu veja esse luz ao fundo do túnel.
Espero é que corra tudo bem! Mas também compreendo os seus sentimentos. Ser mãe sem estar à espera deve ser assustador e gerador de sentimentos confusos. Mais uma vez, espero que corra tudo bem!
É isso. Às vezes, sinto-me um bocado esquizofrénica. :-p
Muito obrigada... vou chamar-te Cantinho, pode ser? :)
Pode ser :D
Então é assim, Lena, acho que andei meia a leste do assunto e só agora é que vi que estás grávida, ou gravidíssima, talvez....
(Por onde andei que isto passou-me ao lado???)
Olha, calma e descontração! Há coisas fáceis e coisas difíceis. Mas, tudo se resolve. :)
Parabéns! E se precisares de alguma coisa, alguma ajuda, alguma palavra amiga, estás à vontade. :)
E lembra-te: calma e descontração! E um sling, claro!!! :)
Deixa lá, Tanita. Eu estou grávida e ainda ando meio a leste do assunto. :-p
Tive de "googlar" para ver o que era um sling...
Obrigada! :)
Gostei de ler o teu post. Compreendo-te tão bem...Tantas foram as vezes que falámos sobre o assunto e cá estamos nós para ver o que vai dar: tu como mãe e eu como «tia». ;-)
Um grande beijinho, minha Amiga.
Não dá para voltar atrás. A Miriam manda-te um pontapé. Se ela já é endiabrada aqui dentro, faço ideia cá fora... Céus!
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