Às vezes, pergunto-me onde andará aquele povo simpático, humilde e de brandos costumes de que tanto falam. Há muito que conheço a outra face dos portugueses, que é capaz de nos empurrar, ou pisar, só para nos passar à frente numa fila. No entanto, a insensibilidade das pessoas nunca deixa de me surpreender.
Ele é gente que rouba lugares de estacionamento, gente que me passa à frente só porque estou a olhar para outra fila (como se a minha existência física de desvanecesse por completo, daquele lugar), gente que manda corridas para me passar à frente, gente que dá encontrões, gente que me ignora. Enfim, acho que poderia fazer uma lista interminável de indelicadezas, porque já me aconteceu de tudo. Mas agora estas situações irritam-me ainda mais, porque se antes eu já achava que não existia motivo para que as minhas ancas passassem despercebidas, este acrescento roliço, que carrego e que vira a esquina antes de mim, torna ainda mais difícil acreditar na desculpa: “Ai, desculpe. Não reparei que estava aí.” (isto num mundo quase perfeito, em que as pessoas pedissem desculpa).
O mais incrível disto tudo são as mulheres. Os homens têm sido de uma gentileza surpreendente e eu nem sequer estou habituada a cavalheirismos, pelo que os aceito sempre com a desconfiança “Não sou inválida!”, mas acho que eles estão simplesmente a ser simpáticos. Agora, as mulheres? Que cabras! E isto não se compreende. Afinal de contas, a maior parte delas passou ou passará por isto. Logo, deveria existir uma espécie de sentimento de solidariedade, sei lá. Mas, não. É precisamente o contrário. Já cheguei a assistir a cenas deploráveis, como recusarem a passagem de uma senhora idosa de muletas, numa caixa prioritária, porque a senhora se fazia acompanhar pelo marido, que não estava de muletas. A sério... Terão as pessoas noção do quanto são mesquinhas e ridículas?
Portanto, quando me encaminho à caixa prioritária, não é com espanto que verifico que está sempre cheia de gente perfeitamente saudável e capaz, que poderia ter optado por uma das outras 10 caixas que tem disponíveis, mas optou por ocupar a vez de quem tem realmente direito de usar essa caixa (provavelmente, essas são as pessoas que não hesitam em estacionar nos lugares dos deficientes). Mesmo quando as funcionárias reparam ou mim e me mandam passar, há sempre quem tente barrar o caminho, ou olhe muito indignado, como se fosse uma espécie de parasita a aproveitar-me de uma condição para lhe passar à frente. Gostava que estas senhoras e senhores percebessem que eu não estou a tirar a vez a ninguém, ao contrário delas, que estão numa fila que não lhes é destinada. Qual é a dificuldade em perceber isto?
Parece que não há muito a fazer, quando a falta de educação está institucionalizada. Deixo passar estas situações, com um encolher de ombros à francesa e com a convicção de que aquelas pessoas devem ter algum problema grave de saúde, nem que seja mental. Talvez um dia, essas pessoas tenham um gostinho da própria estupidez.
8 comentários:
Não há muito a dizer porque já disseste tudo. Só sei que a tendência é para piorar. Um dia vão começar aos pontapés às grávidas, aos idosos e aos deficientes. Isto é só o começo. :(
Concordo com tudo o que escreveste. Eu sou daquelas que dá o lugar se vejo uma grávida, idosos, deficientes motores e, até mesmo a quem tem poucos artigos em comparação aos que eu tenho. Por vezes, dou olhada com desconfiança ou como totó... No fundo, acho que sou educada demais, ou seja, devo ser uma ave rara!
Querida Helena, formação cívica, necessita-se hoje em dia, mais do que nunca! A crise torna as pessoas mais azedas e agrestes, não sei bem porquê!
Depois há os direitos! E tu tens prioridade e ponto final!
E é uma pena serem as mulheres, a terem as piores atitudes.
Beijocas.
Quando não há berço e cházinho, nada feito!
Bjs
Pois é, LOL, só falta começarem as agressões.
Também já me aconteceu, Tânia! Penso que será, sobretudo, no meu caso, porque associam as tatuagens à delinquência e não estão à espera que seja gentil. Ou, então, ficam com receio de que peça uma moeda, ou que seja uma estratégia para os assaltar!
O facto é que, no dia-a-dia, ficámos tão habituados à rudeza das pessoas, que quando alguém é simpático até estranhamos. Ainda há pouco tempo tinha falado sobre isso com o Micha, por causa do atendimento ao público.
É isso, Manuela. Faziam melhor se substituíssem a disciplina de religião e moral nas escolas, por educação cívica, já que claramente os pais não a sabem dar. É muito triste.
Já nem sei se a desculpa certa é a crise. Vejo verdadeiras bestas crescer dentro de pessoas pacatas e com ideias absurdas. Pergunto-me donde virá verdadeiramente tudo aquilo.
Pedro, acho que percebi... mas nunca tinha ouvido essa expressão. :)
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